Crônica da Semana - O menino Lazinho, o balde e a cidade
Lázaro de Góes Vieira Às vezes, basta o ruído de um balde encostando no chão para que uma infância inteira retorne.
Não precisa ser o mesmo balde, aquele provavelmente se perdeu em algum canto do tempo. Mas seu som ainda parece acompanhar a história de Lázaro de Góes Vieira, o menino que, aos sete anos, caminhava até uma mina, em Salto de Pirapora, para buscar a água necessária ao comércio de seus pais.
“- Lazinho, acabou a água. Vá buscar na bica!”, - chamava dona Benedita.
E lá ia Lazinho.
Pegava o balde, ainda maior do que suas pequenas responsabilidades deveriam permitir, e seguia pelo caminho da mina. Na ida, o recipiente parecia leve. Na volta, cheio de água, pesava nos braços e obrigava o menino a andar devagar. Um passo apressado, uma pedra mal calculada e parte da água se perdia pelo chão.
Lázaro nasceu no dia 6 de julho de 1947, filho de dona Benedita e de seu Paulino, em uma família numerosa. Próximo à igreja matriz, seus pais mantinham um daqueles estabelecimentos antigos que pareciam reunir o mundo inteiro sob o mesmo teto: bar, restaurante, pensão, padaria e secos e molhados. Dona Benedita preparava pães, bolos e refeições. Ao pequeno Lázaro cabia buscar água.
Enquanto outras crianças carregavam brinquedos, ele carregava um balde.
Não há nisso qualquer tentativa de transformar sofrimento em virtude. Criança não deveria precisar aprender tão cedo o peso das obrigações. Mas a necessidade tem essa falta de delicadeza: nunca pergunta a idade de alguém antes de bater à porta.
Naquele trajeto diário, Lázaro aprendeu a caminhar devagar para não derramar a água. Talvez tenha sido sua primeira lição sobre a vida: quando se tem pouco, cada gota perdida faz falta.
Depois da separação dos pais, dona Benedita mudou-se com os filhos para o bairro do Cerrado, em Sorocaba. Continuou sustentando a família por meio de um bar, restaurante e pensão. Lázaro acordava de madrugada, ajudava na limpeza, atendia os fregueses, servia refeições e entregava marmitas. Seu irmão Luiz auxiliava na cozinha, preparando pastéis, coxinhas e outros salgados.
A escola foi ficando para depois. Em seu lugar vieram os balcões, as panelas, as sacolas e as madrugadas. Sem perceber, o menino aprendia a ouvir as pessoas, observar suas dificuldades e reconhecer o valor do trabalho.
No dia 22 de agosto de 1963, ainda adolescente, Lázaro chegou a Votorantim com o irmão.
Naquele momento, ele procurava uma maneira de sobreviver. Votorantim também buscava seu próprio caminho.
A então vila-distrito vivia o movimento pela emancipação político-administrativa. Pelas ruas, ecoava o grito do “Sim”. Votorantim queria caminhar com as próprias pernas, tomar suas decisões e construir seu futuro. Lázaro desejava exatamente a mesma coisa.
A cidade e o adolescente se encontraram naquela idade difícil em que já não se é criança, mas ainda não se sabe exatamente como ser adulto.
Os irmãos foram morar com o pai, proprietário da Mercearia Gées, na Vila Dominguinho, na Rua Antônio de Campos Filho, conhecida como Rua da Bica. Naquele tempo, arroz, feijão e açúcar não vinham em embalagens coloridas, acompanhados de marcas e promessas de felicidade. Eram vendidos a granel. Precisavam ser pesados, embrulhados e acomodados em caixas.
Depois, Lázaro levava as compras até a casa dos fregueses.
Foi carregando caixas de mantimentos que ele aprendeu o mapa humano de Votorantim. Antes de conhecer as ruas pelos documentos da Prefeitura, conheceu-as pela poeira acumulada nos sapatos. Antes de saber quantos bairros existiam, conheceu as famílias que moravam neles.
Cada porta guardava uma conversa, uma dificuldade, uma notícia ou um café oferecido às pressas.
Hoje, as compras chegam por aplicativos. Um toque na tela substituiu a conversa no balcão, o papel do embrulho e o menino caminhando com uma caixa nos braços. É mais rápido, evidentemente. A modernidade tem pressa e raramente pergunta o nome de quem faz a entrega.
Foi também nessa passagem da adolescência para a vida adulta que Lázaro deixou crescer o bigode que se tornaria uma de suas marcas mais conhecidas. Começou a cultivá-lo aos 18 anos e, desde então, nunca o retirou, sequer por um único dia.
Há 61 anos, o bigode acompanha seu rosto de forma ininterrupta. Atravessou o balcão da mercearia, o ruído dos teares, as campanhas políticas, o gabinete da Prefeitura, os corredores da faculdade e os encontros familiares. Enquanto Votorantim mudava de aparência, abria avenidas, recebia novas construções e apagava antigas paisagens, o bigode permanecia ali, uma espécie de assinatura desenhada pelo tempo, testemunha silenciosa de quase toda a vida adulta de Lázaro.
Depois da mercearia, vieram as fábricas e as tecelagens. Lázaro começou enchendo canilhas e aprendeu a trabalhar nos teares. Talvez um tear se pareça um pouco com o tempo: puxa os fios sem pedir licença e, quando se percebe, transformou dias soltos em um tecido chamado vida.
A fé acompanhou toda essa travessia. Presbiteriano independente, Lázaro encontrou em Deus não uma resposta pronta para suas dificuldades, mas uma presença silenciosa dentro delas. A fé não retirou o peso do balde, das caixas ou das decisões. Deu-lhe, porém, esperança para continuar carregando cada um deles.
Em 1970, ingressou no MDB. Para ele, a política surgiu como uma continuação das conversas que ouvira nas ruas. Os problemas levados ao balcão da mercearia também precisavam chegar aos lugares onde as decisões eram tomadas.
Em 1976, aceitou o convite para disputar o cargo de vice-prefeito ao lado de Luiz do Patrocino, o querido Luizinho. Eleitos, assumiram a administração municipal em 1º de fevereiro de 1977. Além de vice-prefeito, Lázaro exerceu a função de chefe de gabinete.
Votorantim já era oficialmente uma cidade, mas ainda carregava muitas carências da antiga vila. Faltavam redes de água e esgoto, pavimentação, caminhões, máquinas e estrutura. Quando chovia, algumas ruas pareciam desistir de ser ruas.
Foi naquele período que um morador, o senhor Xavier, procurou a Prefeitura. Queria construir sua casa na Avenida São João. Chamar aquele lugar de avenida exigia alguma imaginação: havia pedras, erosões, valetas e enormes dificuldades de acesso.
O engenheiro municipal não recomendava a construção. Tecnicamente, tinha suas razões.
Lázaro foi até o local, observou o terreno e ouviu o homem falar sobre o sonho de construir a própria casa. Talvez tenha se lembrado do menino que carregava água, embora algumas lembranças trabalhem dentro das pessoas sem se apresentar.
Depois de olhar novamente para o terreno, disse:
“- Alguém precisa começar”.
Assumiu a responsabilidade e autorizou a obra. Ali foi construída a primeira casa da Avenida São João.
Hoje, quem observa o movimento daquela avenida encontra carros, escolas, residências e estabelecimentos comerciais. A antiga paisagem desapareceu. A cidade cobriu as valetas, removeu as pedras e alargou seus caminhos. Fez aquilo que as cidades costumam fazer: cresceu apagando parte das pegadas que explicam como chegou até ali.
Em 18 de março de 1979, a morte de Luizinho interrompeu uma parceria marcada por amizade, confiança e aprendizado. No dia seguinte, Lázaro assumiu a Prefeitura de Votorantim.
O jovem que chegara à cidade para trabalhar atrás do balcão de uma mercearia sentava-se na cadeira de prefeito.
A cadeira provavelmente lhe pareceu grande. Talvez todas as cadeiras públicas devessem parecer um pouco grandes para quem as ocupa. O perigo começa quando alguém acredita ser maior do que elas.
Lázaro encontrou uma Prefeitura com poucos recursos, equipamentos quebrados e necessidades urgentes. Durante sua administração, ampliou a pavimentação, recuperou equipamentos, adquiriu caminhões, ambulâncias e máquinas, implantou galerias de águas pluviais e promoveu melhorias em diferentes bairros.
Em 20 de maio de 1980, nasceu juridicamente a Santa Casa de Votorantim, resultado da mobilização de empresários, entidades e moradores. Lázaro permaneceu como prefeito até 31 de janeiro de 1983, completando aproximadamente três anos e dez meses à frente do município.
Depois, entregou a chave do gabinete.
As chaves são objetos curiosos. Dão a impressão de que alguma coisa pertence a quem as carrega, quando servem apenas para lembrar que toda porta será aberta novamente por outra pessoa. Para Lázaro, cargo político não era profissão. Era uma responsabilidade passageira, recebida da população e devolvida ao fim do mandato.
Ao deixar a Prefeitura, ele ainda carregava uma antiga ausência: os estudos interrompidos na infância.
Fez os exames de suplência, concluiu as matérias que lhe faltavam, ingressou na faculdade e formou-se em Direito. Mais tarde, passou a exercer a advocacia.
O diploma não apagou o menino que precisara abandonar os cadernos. Pelo contrário: foi aquele menino que atravessou com ele os corredores da faculdade. Em cada prova, talvez ainda houvesse um pouco do peso daquele primeiro balde.
A vida também lhe deu quatro filhos, cinco netos e dois bisnetos. São eles que medem o tempo de maneira mais honesta do que os calendários. Os filhos crescem, os netos chegam e os bisnetos olham para o bisavô como se ele tivesse vindo de um país muito distante.
E talvez tenha vindo mesmo.
Hoje, Lázaro dedica grande parte de seu tempo ao cuidado da esposa, cuja memória já não conserva todas as lembranças como antes. Existem recordações que se afastam silenciosamente, como casas observadas pela janela de um trem. Diante disso, ele descobriu que amar também pode significar recordar por dois.
O homem que um dia cuidou de uma cidade encontra agora sentido nos pequenos cuidados dentro de casa.
A política gosta de obras visíveis, placas e inaugurações. O amor trabalha longe das cerimônias: permanece ao lado, repete uma história, organiza o cotidiano e segura a mão de quem talvez já não se lembre de todos os caminhos percorridos em conjunto.
Votorantim também envelheceu. A antiga vila-distrito tornou-se uma cidade de avenidas movimentadas, prédios, fábricas, telas e automóveis. Poucos conseguem imaginar a Rua da Bica com sua antiga mercearia, os produtos vendidos a granel ou um jovem entregando mantimentos.
A modernização melhora os caminhos, mas, algumas vezes, apaga as pegadas.
Por isso, certos objetos permanecem guardados na história de Lázaro: o balde, a caixa de mantimentos, a canilha, a chave do gabinete e o diploma. Nenhum deles possui grande valor material. Ainda assim, basta tocá-los pela memória para que uma cidade desaparecida abra novamente suas portas.
Nela, ainda se pode enxergar um menino caminhando.
É difícil saber se aquele menino ajudou Votorantim a crescer ou se foi a cidade que o ajudou a tornar-se homem. Provavelmente, fizeram as duas coisas ao mesmo tempo, sem perceber. Enquanto Votorantim aprendia a ser cidade, Lázaro aprendia a sobreviver dentro dela.
Ao longe, misturada aos ruídos da cidade moderna, ainda parece ecoar a voz de dona Benedita:
“- Lazinho, acabou a água. Vá buscar na bica!”
E o menino segue caminhando.
O balde que carrega hoje é um balde de memórias, memórias de quem aprendeu, ainda menino, que a vida pode pesar nos braços, mas nunca será pesada demais para quem encontra forças para continuar caminhando.
Por Werinton Kermes









COMENTÁRIOS