Crônica da Semana: Tia Ruth: sua direção sempre foi o amor
“Ugo-ugo… Lá vem ela!”
Antes mesmo de a Kombi dobrar a esquina, as crianças já sabiam que Tia Ruth estava chegando.
A buzina fazia um barulho diferente, algo parecido com “ugo-ugo”, e aquele som atravessava as ruas de Votorantim como um chamado para mais um dia de descobertas. Dentro das casas, as mochilas eram colocadas nas costas, os últimos goles de café eram tomados às pressas e os pequenos corriam para o portão.
Lá vinha Tia Ruth.
Ela não transportava apenas crianças. Levava sonhos ainda pequenos, perguntas sem respostas, risadas soltas, cadernos cheios de possibilidades e toda a energia de quem ainda está começando a descobrir o mundo.
Ruth Inácio de Souza Duran nasceu no bairro da Chave, em Votorantim, em 24 de fevereiro de 1952. Filha de Henrique Inácio de Souza, o “Vírgula”, eletricista da antiga fábrica Votorantim, e de dona Margarida, tecelã e cuidadora da família, aprendeu cedo que a vida exige coragem, mas também oferece beleza.
Na infância, pulava corda na rua até a noite chegar. A brincadeira, porém, precisava terminar cedo. Enquanto as crianças recolhiam os brinquedos, os adultos se preparavam para uma jornada que começaria às quatro horas da manhã.
Ruth também começou a trabalhar cedo. Aos 14 anos, já conhecia o peso das responsabilidades. Mais tarde, aprendeu datilografia e taquigrafia e, ainda muito jovem, tornou-se professora. Antes de conduzir crianças pelas ruas da cidade, ensinou outras pessoas a encontrar as letras no teclado e a formar palavras no papel.
Mas foi sob a lona do Circo Guaraciaba que a vida escreveu um dos capítulos mais delicados de sua história.
Jair, um jovem que vinha de São Paulo visitar parentes em Votorantim, chupava um pirulito de chocolate. Ruth comia pipoca. Ela olhou para o doce e propôs uma troca:
— Dê aqui esse pirulito, que eu dou pipoca para você.
Talvez nenhum dos dois soubesse, naquele instante, que não estavam trocando apenas pipoca por pirulito. Estavam entregando um ao outro o começo de uma vida inteira.
Entre as luzes do circo, o cheiro da pipoca e a inocência de dois jovens, nasceu um amor que atravessaria as décadas. Jair procurou saber onde morava “a morena Ruth”. Encontrou-a novamente no bairro da Chave, pediu autorização ao pai dela para namorá-la e, pouco tempo depois, os dois se casaram.
Ruth tinha 18 anos. Jair, 19.
Foram morar em São Paulo, onde construíram a família. A primeira filha, Jaqueline, nasceu com uma deficiência física e não pôde andar. Naquele momento, a maternidade apresentou a Ruth uma missão que mudaria para sempre o rumo de sua vida.
Jair percebeu que a esposa precisaria ter autonomia para levar a filha aos tratamentos e disse que ela deveria aprender a dirigir.
E Ruth aprendeu.
Aprendeu porque Jaqueline precisava dela. Aprendeu porque, quando o amor encontra uma dificuldade, ele procura um caminho. Se não encontra, abre a própria estrada.
O volante, que inicialmente serviu para conduzir uma filha em busca de atendimento, tornou-se mais tarde o instrumento de trabalho de uma das mulheres pioneiras do transporte escolar de Votorantim.
Primeiro veio a Kombi. Depois, o micro-ônibus. Em determinado momento, a família chegou a trabalhar com vários veículos. Mas, independentemente do tamanho do carro, havia algo que nunca faltava nas viagens: a voz de Tia Ruth.
Naquela época, não havia rádio ou equipamento de som disponível em seus veículos. Também não fazia falta. Tia Ruth era o próprio rádio.
Ela dirigia cantando.
Cantava hinos infantis, ensinava as letras às crianças e transformava o caminho até a escola em um grande coro. Os pequenos cantavam, riam e conversavam. Na volta, traziam histórias sobre as aulas, os amigos, as brincadeiras e as pequenas descobertas daquele dia.
Ela estava entre eles como se tivesse a mesma idade. Conservava a alegria de menina, a vontade de brincar e a capacidade de enxergar o mundo com olhos jovens.
Talvez por isso tantas crianças jamais a tenham esquecido.
Décadas depois, homens e mulheres já adultos ainda se aproximam:
— Tia Ruth, você se lembra de mim?
Ela olha, procura na memória e quase sempre se lembra.
Lembra-se porque nunca transportou números. Transportou pessoas. Cada criança possuía um nome, um endereço, uma família, um medo e uma esperança. Em seu veículo havia bancos, mochilas e cadernos, mas também existia afeto.
Tia Ruth levava crianças para a escola e as devolvia em segurança aos braços de suas famílias. Durante aqueles trajetos, era motorista, cantora, cuidadora, conselheira e, muitas vezes, uma extensão da própria casa.
Sua preocupação com os estudantes também a fez lutar pela organização do transporte escolar em Votorantim. Quando muitos veículos ainda circulavam sem seguro, identificação ou vistoria adequada, Ruth procurou os órgãos responsáveis em Sorocaba e ajudou a trazer fiscalização para a cidade.
Queria os veículos regularizados, os motoristas habilitados e as crianças protegidas.
No dia de uma das fiscalizações, depois de alertar todos os colegas sobre a necessidade de manter a documentação em ordem, descobriu que sua própria carteira de habilitação estava vencida. Precisou chamar outro motorista para retirar o veículo do local onde foi feita a fiscalização falo que Tia Ruth conta dando muitas gargalhadas , eu chamei os fiscais e fui multada , e continua rindo de si mesma de forma espontânea .
Essa também é uma marca de sua caminhada: Ruth enfrentou situações difíceis sem permitir que a dureza roubasse sua leveza.
A mesma disposição que dedicava às crianças foi usada para abrir caminhos para Jaqueline. Ao lado de outras famílias, promoveu festas, reuniu pessoas, buscou recursos e ajudou a construir o que se tornaria a ADV Associação dos Deficientes de Votorantim.
A ADV nasceu da necessidade, mas cresceu alimentada pelo amor.
O que começou como a luta de uma mãe por sua filha transformou-se em amparo para muitas famílias. Ruth compreendeu que a dor, quando dividida e transformada em ação, pode deixar de ser apenas sofrimento e tornar-se uma ponte.
Ela também organizava piqueniques, excursões e atividades para jovens. Enchia ônibus, inventava passeios e acompanhava as filhas e seus amigos. Onde havia crianças ou adolescentes precisando de convivência e alegria, lá estava Tia Ruth.
Mais tarde, trabalhou na assistência social no COMAS a convite da primeira dama da época, Luciane Nunes e iniciu mais uma desafio em sua vida , iniciando a faculdade de Serviço Social. Era como se buscasse, nos estudos, o nome profissional para aquilo que já fazia durante toda a vida: cuidar de gente.
Foi então que o câncer chegou.
A doença era maligna e agressiva. Vieram as cirurgias, a quimioterapia, a reconstrução da mama e, depois, a necessidade de uma nova retirada. Foram aproximadamente quatro anos de tratamento, muitos deles passados na cama.
O câncer tentou interromper os estudos, o trabalho e a rotina. Tentou diminuir sua força e silenciar a mulher que havia passado a vida cantando.
Mas havia uma coisa que a doença não podia alcançar: a razão que Ruth tinha para continuar.
Quando os filhos choravam, ela dizia:
— Ninguém morre na véspera.
Não era uma mulher que desconhecia o medo. Era uma mulher que escolhera não permitir que o medo comandasse seus dias.
Diante da necessidade de retirar a mama, respondeu com a objetividade de quem já havia decidido permanecer:
— Tem que ser sem mama mesmo. Vai sem mama mesmo.
A vida valia mais.
Ruth entendia que ainda não podia partir. Não enquanto Jaqueline precisasse de seu colo, de suas mãos, de sua presença e de sua voz. Não enquanto Jair, companheiro desde os tempos da pipoca e do pirulito de chocolate, também dependesse de sua força.
O câncer não tinha o direito de interromper aquela missão.
Talvez as forças divinas tenham confiado a Ruth algumas tarefas difíceis porque conheciam a extensão de sua coragem. E ela as cumpriu não apenas por obrigação, mas com amor, empatia e alegria.
Sobreviveu.
Voltou a participar de encontros, bingos, shows e atividades comunitárias. Retomou os planos de concluir a faculdade. Continuou cuidando da família e fazendo projetos para o futuro.
A doença levou um pedaço de seu corpo e alguns anos de sua rotina, mas não conseguiu levar sua vontade de viver.
Hoje, perto da Praça da Bandeira, Jaqueline a filha que é um dos motivos de Tia Ruth não desistir cumprimenta quem passa. As pessoas respondem pelo nome dela . Ela pertence àquele lugar, às ruas da Chave e à memória do bairro. Quando alguém sugere uma mudança, ela protesta:
— Você quer que eu morra? Eu adoro a Chave, diz Jaqueline quando a mãe sugere se mudar para outra casa que a família possui na rua Paula Ney .
Talvez seja isso que Ruth tenha construído durante toda a vida: um lugar onde cada pessoa possa sentir que pertence.
Sua família é pequena apenas quando contada pelos números. Quando medida pelo afeto, é imensa. Nela cabem os filhos, os sobrinhos tratados como filhos, os netos, o marido, a irmã Roberta e todas as crianças que um dia ouviram aquela buzina “ugo-ugo”na esquina.
Quando perguntam qual é o segredo de uma família tão unida, Ruth não apresenta fórmulas complicadas:
— É o amor, eu acho.
E é mesmo.
Foi o amor que a fez aprender a dirigir. Foi o amor que levou Jaqueline aos tratamentos. Foi o amor que ajudou a criar a ADV. Foi o amor que protegeu crianças no transporte escolar. Foi o amor que transformou viagens em cantorias. Foi o amor que a manteve em pé quando o câncer tentou derrubá-la.
Durante muitos anos, Tia Ruth levou crianças para a escola e depois as devolveu às suas casas. Mas sua maior viagem nunca aconteceu sobre quatro rodas.
Foi a travessia entre o medo e a coragem, entre a dor e a esperança, entre a possibilidade da despedida e a decisão de permanecer.
Algumas pessoas passam pela vida. Outras ajudam a vida a seguir adiante.
Tia Ruth é dessas.
Antes, sua chegada era anunciada pelo “ugo-ugo” da buzina Tipo Calhambeque
. Hoje, é reconhecida pelas marcas que deixou em Votorantim. E, enquanto houver um antigo passageiro que se lembre das canções, uma família acolhida pela ADV ou alguém que tenha aprendido com sua coragem, a voz de Tia Ruth continuará ecoando pelas ruas da cidade.
Ela passou a vida transportando crianças.
Mas, sem perceber, transportou muito mais: levou esperança, abriu caminhos e ensinou que a vida, mesmo ferida, ainda vale a pena.
E que ninguém deve partir antes de concluir a missão que o amor lhe confiou.
Por Werinton Kermes






Por Werinton Kermes

Werinton Kermes com Tio Ruth

Com a filha Jaqueline

Com todos os filhos

Recebendo o Selo Social pela ADV , que ela ajudou a fundar

Com o esposo Jair






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