A República da lacração
Por Fernando Grecco*
À medida que se aproxima mais uma eleição, o debate público brasileiro parece ingressar, com entusiasmo quase litúrgico, em sua temporada anual de histrionismo digital. As redes sociais convertem-se em um imenso anfiteatro de indignações coreografadas, no qual políticos, militantes, influenciadores e aspirantes a estadistas disputam não a primazia das melhores ideias, mas a efêmera glória de produzir o vídeo mais compartilhável, a frase mais inflamável e a indignação mais fotogênica. O fenômeno é transversal, evidentemente, mas encontra especial fertilidade nos setores da direita que transformaram a política em uma espécie de dramaturgia moralista, na qual todo adversário é um inimigo da civilização, toda divergência é uma conspiração e qualquer ocorrência banal pode ser convertida, mediante competente edição audiovisual, em prova cabal da decadência nacional. O roteiro é invariavelmente previsível: música épica, olhar severo, meia dúzia de frases tonitruantes e, ao final, a indispensável promessa de que alguém finalmente salvará a pátria — provavelmente em um vídeo de 47 segundos.
É curioso observar como parte dessa direita contemporânea se apropriou do vocabulário de “Deus, Pátria e Família” com tamanha frequência que a tríade, originalmente carregada de densidade histórica, passou a funcionar em determinados ambientes como uma espécie de slogan de supermercado ideológico. Deus aparece como avalista retórico; a pátria, como cenário abstrato para discursos inflamados; e a família, como ornamento moral de ocasião. O paradoxo é que, não raramente, indivíduos que se apresentam como sacerdotes da virtude pública demonstram extraordinária elasticidade quando a moralidade precisa atravessar a soleira de seus próprios interesses, alianças e conveniências. Não se trata de condenar a religião, o patriotismo ou a família — valores legítimos e presentes em diferentes tradições políticas —, mas de estranhar a sua utilização como maquiagem retórica para discursos que, submetidos ao escrutínio de algumas perguntas elementares, revelam-se tão consistentes quanto uma cenografia de papelão. A moralidade transformada em adereço eleitoral tem, convenhamos, algo de involuntariamente cômico: quanto mais se proclama a própria pureza, mais indispensável parece esconder a ficha de lavanderia.
Talvez seja justamente nesse ponto que a política brasileira contemporânea tenha empobrecido seu próprio repertório. É difícil imaginar Delfim Netto ou Roberto Campos reduzidos à lógica pueril do “lacrou” ou “mitou”; discordâncias severas à parte, ambos pertenciam a uma tradição na qual economia, Estado, desenvolvimento, inflação, produtividade, comércio exterior e instituições podiam ser objeto de controvérsia substantiva. O contraste com a política-espetáculo contemporânea é inevitável: hoje, frequentemente, uma edição cinematográfica de quinze segundos parece exigir mais elaboração intelectual do que uma proposta legislativa de cinquenta páginas. A política, que deveria ser a arte difícil de administrar interesses conflitantes, vai sendo convertida em uma espécie de concurso de frases de efeito, no qual a complexidade é tratada como defeito e a simplificação, curiosamente, como prova de coragem.
Diderot talvez tivesse especial interesse por esse zoológico retórico. O filósofo iluminista dedicou boa parte de sua obra à contestação do dogmatismo e à valorização de uma postura intelectual disposta a interrogar autoridades, tradições e certezas estabelecidas; a própria Encyclopédie foi concebida como empreendimento destinado a ampliar e reorganizar o conhecimento, não como catálogo de dogmas convenientes. O Brasil eleitoral parece caminhar em direção exatamente oposta: cada tribo fabrica seu pequeno catecismo, seleciona seus santos, canoniza seus influenciadores e reserva aos adversários o confortável estatuto de hereges. Nesse ambiente, ninguém precisa mais explicar como pretende equilibrar contas públicas, elevar produtividade, reformar a administração, reduzir desigualdades, melhorar a segurança ou ampliar a qualidade educacional. Basta encontrar um inimigo adequado, colocar uma legenda em letras garrafais e produzir a indispensável expressão facial de indignação. O eleitor, transformado em espectador, recebe entretenimento travestido de informação e conflito performático apresentado como pensamento.
O problema, portanto, não é a existência de direita, esquerda, conservadores, liberais, progressistas ou qualquer outra corrente política; uma democracia saudável pressupõe precisamente a coexistência dessas divergências. O problema começa quando a política abandona a argumentação e adota a liturgia da lacração como método de persuasão. Nas semanas que antecedem a eleição, seria saudável desconfiar tanto do vídeo que promete a salvação nacional quanto daquele que anuncia a catástrofe absoluta; tanto do patriota profissional quanto do revolucionário de estúdio; tanto do moralista de ocasião quanto do indignado de aluguel. Afinal, governar não é produzir reels, administrar não é viralizar e construir políticas públicas não cabe em uma legenda acompanhada de três emojis. A democracia merece algo menos pueril: menos cenografia, menos messianismo de algoritmo e mais ideias. Porque, quando a política se transforma em espetáculo permanente, talvez a maior lacração de todas seja justamente aquela que ninguém quer ouvir: depois que termina o vídeo, os problemas continuam lá.
*Fernando Grecco é empresário.
(Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do jornal)






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