Crônica da Semana - Ailton Godinho: as chaves de uma vida
Ailton Godinho Um pão grande e um pedaço de pudim. Ailton Godinho ainda se lembra do que recebia por descarregar lenha na padaria do Zé Padeiro. Tinha doze anos. O menino ajudava a esvaziar o caminhão, e aquela pequena recompensa ficou guardada por mais de seis décadas.
Ao contar a história, ele devolve à cidade uma cena que os documentos dificilmente registrariam: uma criança trabalhando, uma padaria precisando de lenha, uma infância que aprendia cedo as exigências da vida.
Ailton nasceu em Votorantim, em 1954. Antes que o município conquistasse sua emancipação, ele já pertencia àquele chão. Cresceu junto de suas ruas, acompanhou suas mudanças e conheceu uma cidade em que os nomes das pessoas serviam também para indicar os lugares. Cada esquina tinha alguém; cada família, uma história.
Uma de suas lembranças mais vivas leva ao cinema do Beranger. Por volta dos dez anos, acompanhava o pai, Rubens Nunes Godinho, o “Soldado Godinho”, policial que trabalhava em Votorantim e fazia a guarda da sala de exibição. As fitas chegavam pelo bonde, e o menino ajudava a buscá-las.
Antes de iluminar a tela, os filmes passavam por suas mãos.
Talvez ele ainda não soubesse quanto cabia naqueles rolos: outras cidades, outros rostos, aventuras que atravessavam distâncias para chegar a uma plateia de Votorantim. Hoje, quando recorda o cinema, é também o pai que volta. O trabalho dele, sua presença, o privilégio simples de acompanhá-lo. A memória guarda os dois na mesma cena.
O avô aparece em lembranças mais breves, porque Ailton era pequeno quando o perdeu. Mas há histórias que continuam dentro de uma família mesmo depois que seus personagens se vão.
Ligado ao trabalho da Light, o avô percorria a cavalo os caminhos das linhas de eletricidade, verificando se havia problemas. Na região do Fornazari, onde morava, tinha gado, oferecia leite às crianças e reunia os moradores para as festas de junho. Marcava quadrilhas, ajudava a organizar os encontros.
Na história que Ailton preserva, o avô está entre aqueles que deram vida às antigas celebrações da comunidade foi ele um dos que deram início ao que conhecemos hoje como a maior festa junina do estado de São Paulo. É bonito imaginar esse homem cuidando dos fios que levavam energia e, nos dias de festa, chamando os vizinhos para dançar. Seu neto guardou essas duas formas de aproximar as pessoas.
Quando fala da mãe, Ailton encontra palavras mais diretas.
“Eu só tenho alegria de falar da minha mãe.”
Ela trabalhou na Votorantim e na Mitidieri, onde se aposentou. Criou Ailton e a irmã Arlete, cuidou de sua educação, cultivou amizades e encontrou nas atividades da terceira idade uma alegria que o filho ainda recorda.
Ele a chama de guerreira. E explica, ao longo da conversa, o que essa palavra significa: uma mulher que trabalhou, educou os filhos e soube conviver com os outros. Uma presença que permaneceu como referência.
Durante dezoito anos, Ailton se dedicou aos cuidados com ela. O filho que havia recebido amparo passou a oferecê-lo. A história dos dois continuou nos gestos cotidianos, na companhia, nas necessidades atendidas, nesse tempo que o cuidado exige e que raramente aparece nas biografias.
Enquanto isso, a vida profissional foi pedindo mudanças.
Depois da lenha na padaria, veio o trabalho como servente de pedreiro. Aos quatorze anos, entrou na fábrica de tecidos de Pedro Augusto Rangel. Mais tarde, trabalhou como encanador na fábrica de papel da Votorantim. Ao sair, enfrentou a dificuldade de conseguir outro emprego.
Precisou aprender caminhos novos.
Trabalhou em escritório de contabilidade, buscou formação, ingressou no ramo imobiliário. Participou da reforma de um prédio para um empreendimento que acabou tomando outro rumo. Vendeu estojos de óculos, ajudou a montar um restaurante, foi vendedor de bebidas.
Cada ocupação trazia uma tentativa de sustentar a própria vida. Algumas oportunidades duravam; outras se encerravam antes do esperado. Ailton recolhia a experiência possível e procurava o próximo trabalho. Sua trajetória tem a marca de quem precisou se reinventar com as condições que encontrava.
Também passou pela cultura do município. Recorda o esforço para conseguir patrocínios para a Festa Junina e o trabalho de adaptar um salão para receber apresentações de balé. Com a colaboração de outras pessoas, vieram cortinas, iluminação, equipamentos e mudanças no palco.
O menino que acompanhava o pai ao cinema cresceu e ajudou a preparar espaços para que outros moradores assistissem a seus espetáculos.
Depois de passagens pelo rádio e por diferentes atividades, encontrou na venda e no aluguel de imóveis um trabalho ao qual se reconheceu pertencendo. A Godinho Imóveis começou num pequeno salão da Rua Albertina Nascimento. Ali, seu nome passou a acompanhar a procura de muitas famílias por um endereço.
Ao explicar o que sente, Ailton fala da alegria de entregar uma chave e perceber a felicidade de quem a recebe.
Para quem percorreu tantos ofícios, aquela satisfação tinha um sentido especial. Ele conhecia o esforço necessário para conquistar alguma estabilidade. Podia compreender o que uma casa representava para quem chegava: o lugar dos móveis, das refeições, dos filhos, do descanso depois do trabalho.
Encontrou seu lugar ajudando outras pessoas a encontrar o delas.
Em 2010, começou o namoro com Sandra Regina Ribeiro. Casaram-se em 2013, e ela passou a assinar Sandra Regina Ribeiro Godinho. Depois de tantos anos dedicados ao trabalho e à mãe, Ailton construía uma nova companhia para os dias.
Sandra ocupa um lugar essencial em sua história.
A diabetes, com a qual convive há muitos anos, trouxe dificuldades. Ele perdeu a visão, passou por cirurgia e voltou a enxergar. A hemodiálise entrou em sua rotina. Uma infecção o deixou acamado por quase dois anos.
Ao recordar esse período, volta-se para a esposa. É com ela que confirma o tempo, é dela que fala quando lembra quem o amparou. Sandra esteve ao seu lado quando o corpo exigia cuidados e a vida precisava caber dentro de limites muito mais estreitos.
Há um amor que se conhece assim: pela permanência. Pelo cuidado repetido, pelo auxílio nos dias difíceis, pela companhia que ajuda a atravessar uma manhã e depois outra.
Hoje, duas vezes por semana, Ailton faz hemodiálise. O tratamento pede tempo, disposição e reorganiza seus dias. Ele segue enfrentando essa rotina, sustentado pelos cuidados necessários, pela presença de Sandra e pela fé que acompanha desde a juventude.
Estar ali, conversando e retomando suas lembranças, tem para ele o valor de uma conquista. Agradece a Deus por ter conseguido se levantar e voltar a contar sua história.
Quando o assunto se volta para o futuro de Votorantim, seus desejos são concretos: bairros onde as pessoas possam morar com dignidade, atenção às crianças, cuidado com os idosos, oportunidades de trabalho. Reconhece as mudanças da cidade, sente falta de amigos que partiram e continua interessado no que acontecerá com quem vive aqui.
Ailton Godinho é um cidadão votorantinense cuja história merece ser ouvida. Nela estão o pai no cinema, o avô nos caminhos da Light, a mãe entre o trabalho e os filhos, Sandra ao seu lado. Estão também os empregos, as tentativas, os projetos interrompidos e a disposição de recomeçar.
Votorantim foi crescendo enquanto ele crescia. E uma parte dessa cidade permanece guardada no que ele conta.
O menino que recebia um pão e um pedaço de pudim encontrou, depois de muitos caminhos, a alegria de entregar chaves. Agora, ao abrir suas lembranças, oferece outra coisa valiosa: a possibilidade de conhecer uma vida que ajudou a compor a nossa.
Por Werinton Kermes




















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