Seja bem-vindo
Votorantim,07/11/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    Opinião - O paradoxo da prosperidade


    Opinião - O paradoxo da prosperidade

    Por Fernando Grecco*

    O Brasil enfrenta um dos mais complexos dilemas de sua política econômica: conciliar a preservação do poder aquisitivo da população com a contenção de um endividamento familiar que compromete parcela expressiva da renda nacional. O elevado custo de vida, associado à persistência de despesas essenciais em patamares elevados, impõe uma deterioração silenciosa do orçamento doméstico. Alimentação, habitação, energia elétrica, transportes e serviços básicos consomem uma proporção significativa dos rendimentos, sobretudo entre as famílias de menor renda. Nesse cenário, não basta ao governo apresentar indicadores macroeconômicos aparentemente favoráveis; é indispensável demonstrar que a estabilidade estatística se traduz em efetiva melhora das condições materiais da população.
    O quadro inflacionário exige uma leitura que ultrapasse a divulgação isolada do IPCA. Em setembro de 2026, o índice registrou alta mensal de 0,82%, acumulando 4,58% em doze meses, enquanto o IPCA-15 de outubro apontou variação acumulada de 4,62%. Embora esses percentuais possam sugerir relativa acomodação dos preços, a inflação não incide de maneira homogênea sobre o orçamento das famílias. Os estratos de menor renda são proporcionalmente mais expostos à elevação dos alimentos, dos aluguéis, das tarifas públicas e dos transportes. Trata-se de uma questão distributiva: a inflação média pode permanecer dentro de parâmetros administráveis, enquanto o custo efetivo de sobrevivência continua comprimindo a renda disponível. É justamente nessa distância entre o indicador macroeconômico e a realidade cotidiana que a política econômica precisa ser julgada.
    Mais preocupante, entretanto, é a dimensão do comprometimento financeiro das famílias. Segundo o Banco Central, em agosto de 2026, o endividamento familiar alcançou 50,1% da renda acumulada em doze meses, estabelecendo novo recorde histórico. O comprometimento da renda com o serviço da dívida chegou a 29%, também no maior patamar da série. Paralelamente, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, identificou que 81,7% das famílias estavam endividadas em setembro. São indicadores distintos, com metodologias próprias, mas convergentes em um diagnóstico preocupante: o crédito deixou de representar exclusivamente um instrumento de antecipação do consumo e passou, para uma parcela expressiva da população, a funcionar como mecanismo de sustentação de despesas ordinárias. Quando o salário termina antes do mês, o cartão de crédito passa a financiar a própria subsistência, frequentemente sob condições financeiras extremamente onerosas.
    A gravidade dessa conjuntura é ampliada pelo custo do dinheiro. Com a taxa Selic em 13,75% ao ano, o ambiente monetário permanece restritivo, encarecendo operações de crédito, financiamentos e renegociações. A inadimplência de 6,6% no crédito livre, segundo os dados de setembro do Banco Central, reforça a dimensão do problema. Não se pode, evidentemente, atribuir toda a responsabilidade pelo endividamento à política monetária, cuja função primordial é preservar a estabilidade dos preços. Contudo, é igualmente insuficiente que o governo trate a renegociação de débitos como solução estrutural. Programas de refinanciamento podem oferecer alívio imediato, mas, sem aumento sustentável da renda real, redução do custo do crédito e maior previsibilidade econômica, corre-se o risco de apenas substituir dívidas antigas por novos compromissos financeiros. Em outras palavras, renegociar a insolvência doméstica sem enfrentar suas causas equivale a administrar sintomas, não a corrigir a enfermidade.
    O desafio governamental, portanto, não consiste em produzir discursos otimistas, multiplicar programas de crédito ou transformar indicadores pontuais em propaganda de desempenho. Exige coordenação macroeconômica, responsabilidade fiscal, produtividade, estímulo ao investimento e políticas de renda capazes de produzir ganhos efetivos de poder aquisitivo. Também demanda uma atuação mais rigorosa sobre a transparência das operações financeiras e o custo do crédito concedido às famílias. O crescimento econômico perde parte de sua relevância social quando não se converte em capacidade de consumo, poupança e segurança financeira. Afinal, um país no qual mais de oito em cada dez famílias convivem com algum tipo de dívida e quase um terço da renda está comprometido com seu serviço não pode confundir expansão do crédito com prosperidade. O verdadeiro teste de competência de qualquer governo não está na quantidade de recursos que consegue colocar em circulação, mas na capacidade de fazer com que a população viva com dignidade, sem depender permanentemente do endividamento para financiar o básico.

    *Fernando Grecco é empresário

    (Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do jornal)




    COMENTÁRIOS

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Recuperar Senha

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.

    Acompanhantes Goiania