Coluna Entrevista da Semana – Tem gente que passa pela vida colecionando bens. Dona Clara Inês colecionou pessoas
Nasceu no Cambuci, cresceu na Pompéia, em uma São Paulo que ainda tinha crianças brincando nas ruas, portas abertas e vizinhos que sabiam o nome uns dos outros. Foi ali, ainda menina, que aprendeu a maior lição da vida. O pai lhe dava uma boneca, mas junto vinha o ensinamento: “Se outra criança quiser brincar, você precisa dividir.” E sem perceber, aquela menina começava a entender que o amor só faz sentido quando repartido.
Talvez por isso Dona Clara nunca tenha aprendido a viver apenas para si.
Enquanto muita gente sonhava em ter mais, ela sonhava em ajudar mais. Descobriu cedo que pobreza nem sempre é falta de dinheiro. Às vezes é solidão. Às vezes é ausência de escuta. Às vezes é apenas alguém precisando de um abraço para continuar vivendo.
Depois veio o amor.
Num passeio ao Guarujá conheceu Leandro, o espanhol que atravessou o oceano para viver no Brasil e que acabaria encontrando nela não apenas uma esposa, mas uma companheira de sonhos. Juntos chegaram em Votorantim quando a cidade ainda tinha cheiro de terra molhada, ruas de barro e horizontes abertos. E foi ali que Dona Clara floresceu.
Ela ajudava em festas, distribuía mexericas para crianças, acolhia animais abandonados, organizava campanhas, ouvia dores alheias como quem escuta um familiar porque essa era sua maneira de existir.
A vida, porém, também sabe ser dura com quem tem coração mole.
Vieram as dificuldades, a falência, a perda de tudo, a morte do marido. E por um instante, talvez o mundo tenha parecido silencioso demais. Mas Dona Clara não nasceu para permanecer caída. Fez da dor um recomeço. Enquanto muitos teriam ido embora, ela escolheu ficar. Escolheu continuar amando Votorantim como quem cuida de alguém da própria família.
E cuidou.
Cuidou de crianças, de idosos, de mães, de famílias inteiras. Ajudou a construir caminhos onde antes só havia abandono. Muita gente que hoje é pai, mãe ou avô talvez nem perceba que carrega um pedaço do carinho de Dona Clara na própria história.
Porque algumas pessoas não constroem monumentos. Constroem memórias.
Dona Clara Inês é dessas raras mulheres que transformaram bondade em rotina. E talvez seja por isso que, quando fala da vida, ainda conserve nos olhos aquele brilho sereno de quem entendeu cedo o segredo da existência: Nada que é feito por amor é pequeno.
Por Werinton Kermes
Fotos: Divulgação






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