Coluna Entrevista da Semana: Beto Zen: o homem que transformou dificuldades em generosidade
Beto Zen Há pessoas que passam pela vida deixando rastros. Outras deixam caminhos. Paulo Roberto Ferreira Camargo, o eterno Beto Zen, segue construindo estrada. Estrada de terra, de asfalto, de fé, de amizade e de humanidade. Uma estrada feita de luta, de suor, de vento no rosto e de coração aberto.
Curioso pensar que um homem chamado “Zen” nunca tenha conseguido ficar parado. O apelido veio pelas mãos de um locutor de rádio, o velho Nogueira, amigo dos tempos da Rádio Meridional. Talvez o radialista tenha enxergado antes de todos aquilo que a própria vida ainda demoraria para revelar: a serenidade de quem aprendeu cedo que sobreviver também pode ser um ato de amor.
A infância de Beto não foi dessas que cabem em porta-retratos dourados. O pai caminhoneiro partiu, deixando para trás uma mulher e cinco filhos. E foi então que surgiu a grande heroína de sua história: a mãe. Operária do tear da antiga Votorantim, mulher de fibra, coragem e princípios, dessas que seguram o mundo nas costas sem reclamar da dor. Enquanto ela trabalhava para alimentar os filhos, o menino também descobria cedo demais o peso da responsabilidade. Engraxava sapatos, plantava verduras no quintal, vendia pipoca, salgadinhos, carregava mercadorias na feira da Vila Hortência. Trabalhava porque precisava. Mas nunca transformou suas lembranças em tristeza. Pelo contrário. Fala da infância com o brilho de quem aprendeu a encontrar dignidade até nas maiores dificuldades.
Talvez por isso Beto tenha se tornado esse homem apaixonado pela liberdade. Há pessoas que gostam de viajar. Beto gosta de partir. Gosta da estrada vazia, do silêncio interrompido pelo barulho do motor da motocicleta, do vento que conversa com o rosto. Gosta de cantar sozinho, falar sozinho, caminhar quilômetros apenas para sentir que a vida ainda pulsa dentro dele. Aos 69 anos, trabalha com a inquietação de um rapaz de vinte. Não sabe ficar parado porque há almas que envelhecem no corpo, mas permanecem jovens na vontade de viver.
Seu velho bar, mistura de armazém, balcão, abrigo e confessionário popular, talvez tenha sido uma das maiores universidades humanas de Votorantim. Beto costuma dizer que bar não é cultura, é “cura”. E talvez esteja certo. Porque atrás de cada copo havia alguém tentando aliviar o peso da vida. O dono do bar virava psicólogo, terapeuta, conselheiro, amigo. Quantas dores foram desabafadas naquele balcão? Quantas pessoas saíram dali mais leves apenas porque alguém as ouviu sem julgamento?
Mas o bar também era palco dos personagens inesquecíveis que ajudam a contar a história afetiva de Votorantim. Entre eles, o excêntrico Landito, figura folclórica da cidade e ex-vereador, que tinha o curioso hábito de cortar as unhas no balcão usando um alicate de cortar fio elétrico. Vaidoso, puxava do bolso de cinco em cinco minutos seu inseparável pente do Flamengo para ajeitar a vasta cabeleira diante dos amigos. Havia também o lendário Barbudo da Avenida, personagem tão humano quanto poético da cidade. Todos os dias ele passava cedo pelo bar para tomar café e comer um doce chamado gibão. E tinha uma mania que emocionava Beto: quando recebia um cigarro, voltava no dia seguinte trazendo outro para pagar a gentileza. E se alguém recusasse, ele ficava bravo. Porque até na simplicidade havia dignidade.
Foi também numa conversa de bar que nasceu a Caminhada da Penha. Algo simples, quase despretensioso, como nascem as coisas verdadeiras. Hoje, 28 anos depois, a caminhada se tornou patrimônio afetivo de Votorantim. Milhares de pessoas saem ainda de madrugada movidas pela fé, pela promessa, pela esperança e pela necessidade silenciosa de continuar acreditando. E Beto segue ali, caminhando ao lado delas, ouvindo histórias, aprendendo sobre a alma humana enquanto o sol nasce pelas estradas da região.
Talvez um dos momentos que melhor definam sua trajetória tenha acontecido numa manhã comum. Ao abrir o bar, encontrou dez sacolas de supermercado cheias de alimentos para doação à caminhada. Quem deixou ali jamais se identificou. E talvez nem precisasse. Porque o bem mais bonito é aquele que não pede aplauso.
Beto Zen é desses homens que carregam Votorantim no peito como quem carrega a própria família. Ama a cidade, sonha com dias melhores, sofre com os erros da política, celebra as pessoas simples e nunca perdeu a capacidade de acreditar. Ao lado da esposa Ancila, companheira de 48 anos, construiu família, criou filhos, virou avô e descobriu que os netos talvez sejam a maneira que Deus inventou para devolver aos homens o tempo que o trabalho roubou deles na juventude.
E no fim, talvez o “Zen” de Beto nunca tenha sido sobre calmaria. Talvez tenha sido sobre resistência. Sobre seguir em frente apesar de tudo. Sobre transformar abandono em solidariedade. Cansaço em coragem. Estrada em liberdade.
Porque existem pessoas que apenas vivem em uma cidade. E existem aquelas que ajudam a manter viva a alma dela.
Beto Zen continua sendo uma delas.
Por Werinton Kermes








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