Opinião - Votorantim perde identidade cultural em meio ao abandono de espaços e artistas locais
Por Jesse James dos Santos*
A cidade de Votorantim, que conquistou o título de Município de Interesse Turístico (MIT), vive hoje um contraste preocupante entre o discurso oficial e a realidade enfrentada pela cultura local. O município, que já foi referência em manifestações culturais e eventos tradicionais, enfrenta um cenário de abandono, descaracterização cultural e falta de valorização dos artistas da própria cidade.
A tradicional festa junina, um dos maiores símbolos populares do município, vem perdendo aos poucos sua identidade. Muitos moradores já não reconhecem mais na festa os elementos culturais que marcaram gerações de votorantinenses. Enquanto isso, artistas locais e eventos tradicionais desapareceram ou sobrevivem apenas graças ao esforço individual daqueles que insistem em manter viva a cultura da cidade.
Outro exemplo do descaso está no prédio da antiga Biblioteca Municipal, localizado ao lado da Câmara Municipal. O espaço, que deveria abrigar o novo Museu Municipal, permanece fechado, mesmo após anos de promessas de entrega. A obra, financiada com recursos ligados ao turismo e ao desenvolvimento cultural do município, segue sem funcionamento e sem atendimento ao público.
O cenário chama ainda mais atenção pelo fato de vereadores e autoridades passarem diariamente pelo local sem que haja cobranças efetivas ou respostas claras à população sobre a paralisação do espaço cultural.
Mas o episódio que mais gerou indignação entre artistas e defensores da cultura local foi o apagamento da releitura artística inspirada na obra de Ettore Marangoni, pintada na fachada do antigo prédio da biblioteca. O trabalho, desenvolvido pelos artistas Natalino Camilo e Denis Lima, era considerado um importante símbolo visual da memória cultural da cidade.
A obra transformava a fachada em um marco artístico no centro de Votorantim e deveria, segundo defensores da cultura, receber manutenção e preservação permanente. Em vez disso, a pintura foi apagada sem qualquer manifestação pública contrária por parte da Secretaria de Cultura.
O silêncio dos gestores culturais diante da remoção da obra gerou críticas e revolta. Para muitos moradores e artistas, o episódio representa não apenas a destruição de uma pintura, mas o apagamento simbólico da própria identidade cultural do município.
A crítica se torna ainda mais forte diante da ambição de Votorantim em fortalecer o turismo e buscar futuramente o status de estância turística. Especialistas e moradores questionam como a cidade pretende avançar no setor sem preservar seus próprios patrimônios culturais, seus artistas e sua memória histórica.
Enquanto cidades turísticas valorizam murais, centros culturais e obras públicas como símbolos de identidade e atração, Votorantim vê desaparecer parte de sua história artística em pleno centro urbano.
Para muitos cidadãos, o sentimento é de vergonha e abandono. A percepção é de que falta valorização da cultura, do turismo e do próprio dinheiro público investido em espaços que permanecem fechados e sem utilidade para a população.
O caso reacende o debate sobre a necessidade de políticas culturais mais sérias, transparentes e comprometidas com a preservação da memória e da identidade votorantinense.
*Jesse James dos Santos é relações públicas, produtor cultural e documentarista





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