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Votorantim,13/07/2026

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    Opinião - O lixo nas ruas e a decomposição da administração pública


    Opinião - O lixo nas ruas e a decomposição da administração pública



    Por Fernando Grecco*


    Há momentos em que uma cidade deixa de ser apenas um espaço urbano e passa a constituir uma alegoria de si mesma. Votorantim vive um desses instantes sombrios. As ruas, transformadas em depósitos involuntários de detritos, exibem montanhas de sacos rasgados, odores que se infiltram nas esquinas e uma paisagem que parece anunciar não apenas a ausência de coleta, mas a decomposição de algo mais profundo: a própria capacidade de governar. O lixo acumulado não é um acidente administrativo; é uma linguagem. Cada resíduo abandonado sobre as calçadas converte-se em um símbolo eloquente de uma administração que, incapaz de ordenar o básico, deixa transparecer a desordem de sua própria estrutura. O que apodrece nas ruas é também a ideia de eficiência, de zelo e de responsabilidade pública. 

    Friedrich Nietzsche escreveu que “é preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. Entretanto, há um tipo de caos que não gera estrelas, mas ratos; não produz grandeza, mas pestilência. O caos administrativo que hoje se espalha por Votorantim não possui qualquer potência criadora. É um caos estéril, fruto da improvisação, da ausência de planejamento e da incapacidade de responder às demandas mais elementares da vida coletiva. O lixo, nesse contexto, deixa de ser mera matéria descartada para tornar-se metáfora de uma gestão que parece ter perdido o senso de direção. Sacos de resíduos amontoam-se como monumentos involuntários ao fracasso administrativo, erigidos diariamente em cada bairro, em cada esquina, em cada porta de residência. 

    Mais grave ainda é perceber que a sujeira física produz inevitavelmente uma sujeira institucional. Quando o poder público se mostra incapaz de retirar das ruas aquilo que a sociedade rejeitou, transmite à população uma mensagem devastadora: a de que o abandono tornou-se método de governo. O lixo acumulado converte-se em espelho de uma administração que se assemelha a um organismo em estado de decomposição, onde a inércia substituiu a ação e o improviso tomou o lugar da competência. O odor que emana dos resíduos parece exalar, em sentido figurado, o cheiro acre da negligência e da incapacidade administrativa. Uma cidade que não consegue recolher seu lixo começa, pouco a pouco, a colecionar também os escombros de sua credibilidade. 

    E, diante desse espetáculo de degradação, a Câmara Municipal parece ter escolhido o papel mais cômodo e menos republicano: o da contemplação passiva. Os vereadores, investidos constitucionalmente da função de fiscalizar, comportam-se como espectadores silenciosos de um incêndio institucional. Assistem à cidade afundar em resíduos enquanto se refugiam em discursos protocolares e manifestações tímidas, como se a crise fosse uma fatalidade da natureza e não consequência de escolhas políticas. A omissão do Legislativo, em momentos como este, deixa de ser neutralidade para converter-se em cumplicidade. Uma Câmara que não questiona, não exige respostas e não impõe responsabilidades torna-se parte integrante do problema que deveria combater. 

    Ao final, o que se vê em Votorantim transcende a mera deficiência de um serviço público. O lixo espalhado pelas ruas é a imagem concreta de uma administração que perdeu a capacidade de organizar o presente e de inspirar confiança no futuro. Cidades não adoecem apenas por epidemias ou crises econômicas; adoecem também pela corrosão silenciosa de suas instituições e pela banalização da incompetência. E quando o lixo deixa de ser recolhido, ele deixa igualmente de ser apenas lixo: transforma-se em metáfora de um poder público que abandonou a cidade à própria sorte e em testemunha incômoda de uma gestão cuja maior obra, até aqui, parece ser a acumulação visível de seus próprios fracassos. 


    *Fernando Grecco é empresário. 

    (Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do jornal)





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