Crônica da Semana - Dona Dirce Tonche: 88 anos e nenhuma pressa para estacionar a vida
Se você encontrar uma senhora de 88 anos dirigindo pelas ruas de Votorantim, seguindo para o supermercado, a farmácia ou, quem sabe, pegando a estrada rumo a alguma cidade da região, não se apresse em oferecer ajuda. Pode ser Dona Dirce Tonche, e talvez seja ela quem acabe perguntando se você está precisando de alguma coisa.
Os filhos, naturalmente, preocupam-se. Às vezes recomendam que ela descanse, diminua o ritmo e evite certas viagens. Dona Dirce escuta com atenção, agradece o cuidado e, dependendo do conselho, faz exatamente o contrário. Não por teimosia, embora talvez exista uma pequena e divertida dose dela, mas porque ainda se sente senhora de seus caminhos, de sua casa, de suas escolhas e, sobretudo, de sua própria vida.
Aos 88 anos, completados em 5 de maio, Dona Dirce mostra que envelhecer não significa deixar de viver. O tempo pode até marcar o rosto, mas não precisa estacionar os sonhos. Ela cuida de si, dirige, faz compras, resolve suas tarefas e preserva uma independência que, para ela, não é motivo de exibição: é simplesmente seu jeito de existir.
Dirce Tonche nasceu em 5 de maio de 1938, no bairro da Chave, na Rua Danúbia Nascimento. Foi a primeira dos quatro filhos de Francisco, conhecido como Chico Cavalete, e Maria Aparecida Pontes. A mãe era natural de Araçoiaba da Serra. O pai nasceu e cresceu no bairro rural do Itapeva, em Votorantim.
Chico Cavalete era um funcionário estimado pela direção da fábrica. Quando uma casa maior ficou disponível no bairro, ele reuniu coragem, foi até a diretoria e pediu a mudança para acomodar melhor a família. Conseguiu. Assim, a deixou a Rua Danúbia Nascimento e passaram a morar na Rua Savóia.
Antes dos dez anos, Dirce já carregava duas grandes paixões: a leitura e a escola. Gostava de estudar e sonhava com cadernos e lápis diferentes. Enquanto outras crianças desejavam brinquedos, ela queria material escolar. Para conseguir o que desejava, pediu ao pai que a deixasse ajudá-lo no Açougue Popular, localizado na esquina próxima à ponte, entre a antiga Avenida do Comércio e a entrada do bairro da Chave.
O açougue havia se tornado possível graças ao apoio do amigo Antônio Festa, proprietário do matadouro situado nas proximidades da Cachoeira da Chave. Aos dez anos, Dirce ajudava o pai no estabelecimento e também vendia ovos e laranjas pelas ruas do bairro. O dinheiro tinha destino certo: comprar cadernos e lápis.
Como era a filha mais velha e, durante algum tempo, não tinha irmãos com idade para acompanhar suas invenções, brincava sozinha. Criava amigos imaginários e montava sua própria escola. Nessa escola particular, era professora e aluna ao mesmo tempo. A professorinha Dirce fazia perguntas, chamava a atenção da aluninha Dirce e, logo depois, mudava de lugar para responder.
Talvez tenha sido ali, naquela sala de aula imaginária, que nasceu a mulher capaz de ensinar sem subir em uma tribuna: ensinando pela maneira de viver.
Ainda adolescente, começou a trabalhar na fábrica. Por volta dos 17 anos, conheceu Dante Tonche, jovem de família de origem austríaca que, segundo ela, tinha um jeitão de Elvis Presley. Pode ser que a semelhança estivesse no cabelo, na postura ou no olhar. O fato é que o rapaz conquistou a moça.
Depois das primeiras paqueras, Dante precisou cumprir o ritual exigido naquele tempo: ir à casa de Dirce pedir ao senhor Chico Cavalete autorização para namorá-la. O pai concordou, mas estabeleceu uma condição bastante objetiva: casamento dentro de seis meses.
O casal ouviu a ordem e tratou de não obedecer. Casou-se somente dois anos depois.
Dona Dirce gosta de lembrar que os jovens de sua época também enganavam os pais. A diferença, segundo ela, é que precisavam usar muito mais criatividade, pois não havia carro nem lugares apropriados para namorar. Se hoje existem mensagens instantâneas e localização pelo celular, naquele tempo existiam bilhetes, sinais combinados, caminhadas demoradas e uma enorme habilidade para fazer cinco minutos de conversa parecerem obra do acaso.
Na juventude, duas diversões eram sagradas: o clube e o cinema. Entre as duas, o cinema ocupava um lugar especial. Leitora apaixonada pelos clássicos da literatura mundial, Dirce encontrava na tela uma continuação dos livros.
Um dos momentos que guarda na memória foi a exibição de O Conde de Monte Cristo no cinema de Votorantim. Ela havia lido o romance meses antes e ficou profundamente ansiosa para assistir ao filme. Queria descobrir como as palavras, os personagens e os cenários que já habitavam sua imaginação apareceriam na tela. Para Dona Dirce, o cinema nunca foi apenas diversão. Era também uma forma de leitura, uma janela luminosa aberta para outros mundos.
Ao lado de Dante, construiu sua família e dividiu uma missão que ultrapassa os limites da própria casa: acolher os necessitados. O casal teve três filhos, que lhe deram quatro netos e duas bisnetas. Mas o coração dos dois sempre encontrou espaço para cuidar também dos filhos de outras famílias.
Inicialmente, Dona Dirce e Dante pensaram em criar um asilo em Votorantim para amparar idosos. A ideia mudou após o conselho de um amigo de Sorocaba. Perceberam que muitas mães precisavam trabalhar e não tinham onde deixar seus filhos. Assim começou a nascer a Creche São Vicente de Paulo, fundada em 1984.
Dona Dirce faz questão de lembrar que essa obra não foi construída por apenas duas mãos. Outras pessoas acreditaram na proposta e dedicaram tempo e esforço à instituição, entre elas o casal João Pivetta e Therezinha Belei Pivetta. Essa lembrança revela muito sobre ela: mesmo quando merece estar no centro da homenagem, procura abrir espaço para colocar outras pessoas ao seu lado.
A creche não foi somente um prédio destinado a receber crianças. Tornou-se um lugar de proteção, aprendizado e afeto. Para as mães, representou a tranquilidade de trabalhar sabendo que seus filhos estavam seguros. Para as famílias, trouxe apoio e esperança. Para as crianças, foi um segundo lar, lugar das primeiras amizades, das brincadeiras, do alimento e das descobertas.
Para Votorantim, a Creche São Vicente de Paulo tornou-se uma obra de profundo significado humano. Uma cidade não é formada apenas por ruas, fábricas, pontes e edifícios. Também é construída por pessoas capazes de perceber a necessidade do outro e fazer alguma coisa para transformar aquela realidade.
A morte de Dante, aos 50 anos, interrompeu cedo demais uma história de companheirismo. Dona Dirce mergulhou em um luto profundo e atravessou cerca de cinco anos de tristeza e depressão. O amor que havia sustentado tantos sonhos tornou-se ausência.
Foi depois de uma longa conversa com o amigo e confidente padre Paulo Gonzales que ela começou a encontrar forças para sair daquele lugar escuro. Não deixou de sentir saudade. Apenas compreendeu, pouco a pouco, que continuar vivendo não significava esquecer Dante. Significava honrar tudo o que haviam construído juntos.
E ela continuou.
Continuou cuidando, trabalhando, acolhendo e participando da vida da cidade. Por sua trajetória no comércio e, principalmente, pela dedicação aos mais necessitados, tornou-se uma das figuras mais conhecidas e queridas de Votorantim.
Quando fala sobre sua cidade, não a descreve como perfeita. “Votorantim não é a melhor cidade do mundo, nem do Brasil. Mas é a minha cidade”, afirma. Ama suas qualidades e também seus defeitos. Não se vê nem se imagina morando em outro lugar.
Quando o assunto chega à política, pede para mudar de conversa. Mas não antes de deixar uma opinião: para ela, o primeiro prefeito, Pedro Augusto Rangel, foi quem verdadeiramente pensou Votorantim para os vinte anos seguintes à emancipação de Sorocaba. Depois disso, provavelmente troca o tema, afinal, Dona Dirce sabe que certas discussões podem envelhecer qualquer pessoa mais depressa do que o calendário.
Perguntada sobre o que é felicidade, ela não fala em dinheiro, viagens ou conquistas. Responde com uma palavra: paz. Paz onde quer que estejamos, mas principalmente dentro da família.
Sobre arrependimentos, confessa que gostaria de ter estudado mais. O pai dizia que estudo era coisa para homem, não para mulher. Hoje, ela reconhece que deveria tê-lo enfrentado. Aquela menina que vendia ovos e laranjas para comprar cadernos sabia, mesmo sem conseguir dizer, que o conhecimento também lhe pertencia.
E ela perdoou o pai?
“Sim, claro”, responde rapidamente. Guardar mágoa, ensina Dona Dirce, faz mal à saúde.
Talvez esteja aí uma das explicações para sua vitalidade. Ela não carrega no peito o peso desnecessário do ressentimento. Leva consigo as lembranças, os aprendizados, o amor pela família, a saudade de Dante e a certeza de ter ajudado a construir algo maior do que ela mesma.
Dona Dirce Tonche chegou aos 88 anos sem abandonar o volante da própria história. Continua dirigindo pelas ruas de Votorantim e pelas estradas da região, às vezes sob os protestos carinhosos dos filhos. Mas quem passou a vida abrindo caminhos para tanta gente dificilmente aceitaria permanecer parada.
Envelhecer, ela demonstra todos os dias, não é fechar as janelas da existência. É aprender a contemplar a paisagem com mais calma, sem deixar de seguir viagem.
E, se depender de Dona Dirce, essa viagem ainda terá muitas paradas no supermercado, na farmácia, na casa dos filhos, na creche, nas cidades vizinhas e no coração de Votorantim.
Porque algumas pessoas contam os anos.
Dona Dirce prefere fazê-los valer.
Por Werinton Kermes








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