Déficit habitacional: entre os avanços e a dimensão do desafio brasileiro
Por Fernando Grecco*
O déficit habitacional brasileiro permanece como uma das mais expressivas externalidades da desigualdade socioeconômica e da urbanização desordenada do país. Os dados mais recentes da Fundação João Pinheiro, referentes a 2024, estimam o déficit em 5.773.983 domicílios, equivalente a 7,4% dos domicílios particulares ocupados. Embora o indicador represente uma redução de 3,4% em relação a 2023 e configure o segundo recuo consecutivo, sua magnitude revela que o problema está longe de ser equacionado. O déficit não se restringe à inexistência física de uma residência: envolve coabitação, habitações precárias e o comprometimento excessivo da renda familiar com aluguel, compondo um fenômeno estrutural que exige políticas públicas permanentes, planejamento urbano e mecanismos eficientes de financiamento.
Nesse contexto, o Minha Casa, Minha Vida (MCMV) assume papel estratégico na política habitacional brasileira. Sua relevância decorre não apenas da capacidade de ampliar o acesso à propriedade imobiliária, mas também de sua aptidão para articular subsídios públicos, recursos do FGTS, crédito de longo prazo e produção habitacional em escala. A retomada do programa, a partir de 2023, recolocou a habitação popular no centro da agenda pública e ampliou seu alcance, inclusive com a criação da modalidade voltada à classe média, alcançando famílias com renda mensal de até R$ 13 mil e imóveis de até R$ 600 mil. Trata-se de uma mudança relevante de arquitetura institucional, pois amplia o espectro de beneficiários e contribui para dinamizar simultaneamente a oferta habitacional, a construção civil e o mercado de crédito imobiliário.
Os resultados recentes corroboram a importância dessa estratégia. Em 2024, a CAIXA Econômica Federal alcançou o expressivo montante de R$ 223,6 bilhões em contratações de crédito imobiliário, crescimento de 20,6% sobre o ano anterior, mantendo participação de 67,2% do mercado. Já em 2025, o banco prosseguiu em trajetória de expansão: até 4 de julho, havia contratado R$ 112 bilhões em crédito habitacional e trabalhava com projeção de aproximadamente R$ 250 bilhões em contratações ao longo do ano. Esses números ultrapassam a dimensão meramente bancária: cada operação habitacional movimenta a cadeia da construção civil, gera emprego, estimula fornecedores, amplia a arrecadação e produz efeitos multiplicadores sobre a atividade econômica. A habitação,
portanto, deve ser compreendida também como vetor de desenvolvimento.
Entretanto, a dimensão do problema recomenda prudência diante de qualquer triunfalismo. A redução do déficit para 5,77 milhões de domicílios é inequívoca, mas ainda representa uma contingência social de proporções extraordinárias. Além disso, o enfrentamento da questão habitacional exige superar a dicotomia entre quantidade de unidades produzidas e qualidade da inserção urbana. Não basta construir: é necessário assegurar localização adequada, infraestrutura, saneamento, mobilidade, equipamentos públicos, segurança jurídica e integração socioespacial. O risco de transformar política habitacional em mera política de produção imobiliária reside justamente na possibilidade de reduzir o indicador quantitativo sem enfrentar integralmente a inadequação habitacional e a segregação territorial. O verdadeiro parâmetro de eficiência deve ser a capacidade de converter financiamento e subsídio em moradia digna, sustentável e territorialmente integrada.
O Brasil, portanto, encontra-se diante de uma equação que combina avanços concretos e desafios persistentes. A queda do déficit, a expansão do Minha Casa, Minha Vida e o protagonismo da CAIXA demonstram que políticas públicas estruturadas, quando associadas a mecanismos de crédito e subsídio, são capazes de produzir resultados mensuráveis. A CAIXA, pela capilaridade de sua rede, pela escala de sua carteira habitacional e pela expertise acumulada no financiamento imobiliário, constitui peça central dessa engrenagem. O desafio dos próximos anos será conferir continuidade, eficiência alocativa e sustentabilidade fiscal à política habitacional, evitando descontinuidades que historicamente comprometeram programas de longo prazo. Afinal, reduzir o déficit habitacional não significa apenas diminuir uma estatística: significa reduzir desigualdades, fortalecer a economia, conferir segurança às famílias e concretizar um dos fundamentos mais elementares da cidadania — o direito de viver em uma moradia digna.
*Fernando Grecco é empresário.





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