Crônica da Semana - Ana Criguer: a professora que continua ensinando
Existem professores que ensinam durante determinado período. Outros continuam ensinando mesmo depois que o sinal da escola toca pela última vez.
Ana Criguer pertence a esse segundo grupo.
Sua sala de aula tornou-se maior que os limites de qualquer escola. Está nas ruas de Votorantim, nas famílias que ajudou, nos antigos alunos que a encontram e, mesmo depois de tantas décadas, ainda a chamam de “tia”.
Ana nasceu em 4 de agosto de 1946, na Barra Funda, quando Votorantim ainda tinha muitas ruas de terra, poucos bairros e aquele jeito tranquilo das cidades onde todos pareciam se conhecer. Filha de Benedito Criguer e Ambrosina Antunes Criguer, cresceu entre sete irmãos, numa casa onde talvez não sobrassem facilidades, mas nunca faltaram à união’, fé e dignidade.
Naquela Votorantim de antigamente, a infância acontecia do lado de fora. As ruas eram o quintal das crianças. Ali se brincava, faziam-se amizades e aprendia-se a conviver. Ana recorda esse tempo com a alegria de quem ainda consegue ouvir, em algum lugar da memória, as vozes dos amigos chamando para brincar.
Foi uma infância simples, mas feliz.
Cedo, porém, Ana conheceu também o significado do trabalho. Aos 12 ou 13 anos, ajudava o pai a plantar e vender verduras. Fez faxinas e, mais tarde, trabalhou no armazém de um dos irmãos. A vida não lhe entregou caminhos prontos. Ela precisou construí-los com as próprias mãos.
Dos pais, recebeu lições que nenhum livro escolar seria capaz de ensinar por inteiro: honestidade, caráter, respeito e perseverança. Seu pai lembrava que era importante pedir a proteção de Deus, mas também era preciso trabalhar. Afinal, a fé pode iluminar o caminho, mas são os nossos passos que realizam a caminhada.
Outra frase de Benedito permaneceu guardada no coração da filha:
“Ou você aprende pelo amor ou aprende pela dor. Então, é melhor aprender pelo amor.”
E foi pelo amor que Ana decidiu ensinar.
Antes disso, viveu a juventude possível e bonita de seu tempo. Trabalhou, estudou, passeou pelo Jardim Bolacha, encontrou amigos, paquerou e tomou sorvete nos antigos bares da cidade. Frequentava o Clube Atlético Votorantim, onde os jovens se encontravam sem o medo que hoje tantas vezes limita a liberdade.
A cidade crescia e Ana crescia com ela.
A escolha pelo magistério foi inteiramente sua. Estudava à noite na Escola Getúlio Vargas, em Sorocaba. No primeiro ano, ainda não havia ônibus para retornar a Votorantim. Por isso, dormia na casa de uma amiga e voltava pela manhã para trabalhar no armazém do irmão.
É fácil falar de sonhos quando o caminho está iluminado. Mais difícil é continuar sonhando quando falta até mesmo uma condução para voltar para casa. Ana continuou.
Desde pequena, destacava-se nos estudos. No quarto ano, alcançou a maior nota da turma e ganhou uma bolsa da Companhia Votorantim, que passou a custear seus materiais escolares. Talvez já estivesse ali um sinal: antes de ensinar gerações, aquela menina compreendeu que a educação poderia abrir portas que pareciam fechadas.
Ainda jovem, quando era necessário substituir algum professor, Ana deixava o trabalho, trocava de roupa e seguia para a escola. Aos poucos, a sala de aula deixou de ser apenas o lugar para onde ela ia. Tornou-se o lugar ao qual ela pertencia.
Certa vez, foi aprovada em um concurso para trabalhar no INSS. Precisou escolher entre uma carreira no serviço público e o magistério. Escolheu ser professora.
E nunca se arrependeu.
Foram 38 anos ensinando em escolas municipais e estaduais, como EMEF Professor Abimael Carlos de Campos, EMEIEF Antônio Marciano e na EMEIEF Professora Helena Pereira de Moraes (Parcão). Foram milhares de cadernos, perguntas, dificuldades, descobertas e olhos infantis esperando uma palavra de incentivo.
Para Ana, cada classe era uma família.
Ela ensinava as matérias exigidas pelo currículo, mas também procurava transmitir aquilo que aprendera dentro de casa: honestidade, caráter, respeito e responsabilidade. Sabia que formar uma criança não era apenas ajudá-la a ler as palavras, mas prepará-la para compreender o mundo e, quem sabe, torná-lo melhor.
Alguns de seus ex-alunos chegaram a posições de destaque na vida pública, como Eric Romero, Fernando de Oliveira e Rogério Pécora, atual vice-prefeito da cidade. Outros seguiram caminhos menos conhecidos, mas igualmente importantes. Tornaram-se trabalhadores, pais, mães e cidadãos que encontraram nos estudos uma oportunidade para vencer.
Esta talvez seja a maior obra de uma professora: não saber exatamente até onde chegou a semente que plantou.
Até hoje, antigos alunos param diante da casa de dona Ana para conversar. Muitos eram crianças da pré-escola e continuam chamando-a de “tia”. Ela nem sempre reconhece de imediato os adultos que se aproximam, mas eles reconhecem nela a professora dos primeiros anos de suas vidas.
O tempo mudou o rosto dos alunos, mas não apagou a gratidão.
A fé também acompanhou Ana por toda a caminhada. Participou da Cruzada Eucarística, foi Filha de Maria, catequista e trabalhou na preparação de casais para o matrimônio. Foi nesse ambiente da igreja que seus olhos encontraram os de Jesus Rodrigues.
O namoro nasceu entre missas, olhares discretos e encontros depois das celebrações. Casaram-se em 11 de setembro de 1971.
Jesus era calmo e tranquilo. Ana, como ela mesma reconhece, sempre teve um jeito mais agitado. Talvez por isso tenham se completado tão bem. A serenidade de um encontrava a força do outro, e assim os dois construíram uma vida de companheirismo, respeito e presença, a união os contemplou com dois filhos: Rodrigo e Luciana.
Jesus Rodrigues faleceu em 19 de abril de 2023. Mas, para Ana e sua família, o amor não terminou naquela data. Ele permanece nas lembranças, nas histórias e nos gestos que o tempo não consegue levar.
Ana acredita que o espírito não morre. Por isso, guarda a esperança de que um dia eles voltarão a se encontrar. Até lá, Jesus continua vivendo no lugar onde as pessoas verdadeiramente amadas nunca morrem: dentro de nós.
A vocação de Ana para cuidar das pessoas também ultrapassou os muros da escola. Como secretária municipal de Cidadania durante o governo de Erinaldo Alves da Silva, participou de ações importantes, entre elas a entrega de 900 apartamentos populares.
Na política, passou pelo MDB, partido de resistência à ditadura e acompanhou a fundação do PSDB, partido no qual exerceu diferentes funções. Mas sua compreensão da vida pública sempre foi maior que qualquer sigla.
Para ela, quem entra na política precisa ser verdadeiro, gostar de pessoas, ter caráter e saber se colocar no lugar do outro. Um governante, antes de qualquer coisa, precisa amar a cidade que governa. Ana também defende que as boas ações tenham continuidade, independentemente de quem as iniciou, porque abandonar um projeto útil apenas por divergência política é desrespeitar a população.
Mesmo depois da aposentadoria, ela não conseguiu se aposentar do cuidado.
Continuou nos trabalhos voluntários e nas ações da comunidade. Às terças e quartas-feiras, dedica parte de seu tempo à farmácia comunitária, ajudando na entrega de medicamentos às pessoas que mais precisam.
Há algo profundamente coerente nessa trajetória: a menina que ajudava o pai a vender verduras tornou-se a professora que ajudava crianças a encontrar seus caminhos; depois, tornou-se a agente pública que ajudava famílias a conquistar que necessitavam; e continua sendo a voluntária que entrega medicamentos a quem necessita.
Mudaram os lugares, mas não mudou a disposição de servir.
Entre tantos papéis que desempenhou, filha, esposa, mãe, professora, secretária e voluntária, Ana diz que ser avó é uma das experiências mais maravilhosas da vida. É como se, depois de ensinar tantas crianças, a existência lhe tivesse presenteado com uma nova oportunidade de acompanhar a infância bem de perto.
Ana gosta de viajar e costuma dizer que “viajar é trocar a roupa da alma”. A frase combina com ela. Sua alma parece ter aprendido a se renovar sem perder aquilo que carrega de mais verdadeiro.
Por mais lugares que conheça, Votorantim continua sendo seu endereço afetivo. É a cidade da menina da Barra Funda, da jovem que passeava pelo Jardim Bolacha, da professora, da catequista, da esposa de Jesus, da avó, da mulher pública e da voluntária.
Quando perguntada sobre como gostaria de ser lembrada, Ana não pede homenagens grandiosas. Desejo ser lembrada com carinho, amizade e alegria. Quer que as pessoas se recordem de alguém que procurou fazer o melhor, que gostava de conversar, de brincar e de tratar os outros com respeito.
Talvez ela não perceba, mas já é assim que Votorantim a guarda.
Dona Ana deixou uma mensagem aos jovens: estudem, trabalhem e amem a cidade. Às famílias, desejo paz. Aos governantes, pediu amor verdadeiro por Votorantim. E, para todos nós, deixou quatro palavras que parecem simples, mas que poderiam transformar o mundo: paz, amor, caridade e fraternidade.
Sua história nos ensina que uma vida importante não é necessariamente aquela que aparece nos grandes livros. É aquela que permanece escrita na memória das pessoas.
Ana Criguer poderia ter escolhido outro caminho. Poderia ter seguido a carreira no INSS, mas preferiu a sala de aula. Escolheu o quadro, o giz, os cadernos e a responsabilidade de preparar pessoas para o futuro.
Durante 38 anos, ensinou a ler e a escrever. Porém, sua maior lição não estava escrita no quadro.
Estava em sua maneira de viver.
Ana ensinou que a fé precisa caminhar ao lado do trabalho. Que o conhecimento abre portas. Que a política só faz sentido quando nasce do amor pelas pessoas. Que servir ao próximo não tem idade para terminar. Que a morte pode interromper uma presença, mas não consegue apagar um verdadeiro amor.
E ensinou, sobretudo, que é melhor aprender pelo amor.
O sinal da última aula de dona Ana já tocou há muitos anos. Os alunos cresceram, as escolas mudaram e a antiga Votorantim das ruas de terra ficou guardada nas fotografias e nas lembranças.
Mas a professora continua ensinando.
Ensina cada vez que um antigo aluno para diante de sua casa. Cada vez que alguém repete um conselho recebido em sala de aula. Cada vez que uma pessoa escolhe agir com honestidade, respeito e solidariedade.
Há professores que passam por nossa vida.
E há professores, como dona Ana Criguer, que passam a fazer parte dela para sempre.
Por Werinton Kermes














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