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Votorantim,23/09/2026

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    Opinião: Quando o sensacionalismo barato pesa mais que um elefante


    Opinião: Quando o sensacionalismo barato pesa mais que um elefante

    Por Fernando Grecco*

    A transferência de Sandro, o elefante asiático que viveu por mais de quatro décadas no Zoológico Quinzinho de Barros, para o Santuário de Elefantes Brasil, em Mato Grosso, encerra um capítulo que deveria ter sido tratado com serenidade, rigor científico e absoluta prevalência do bem-estar animal. A decisão não surgiu de improviso nem de capricho de ativistas: decorreu de uma longa controvérsia judicial, de perícias, inspeções e avaliações técnicas sobre as condições de manutenção do animal. Em junho de 2026, o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou, por unanimidade, a transferência, considerando inadequadas as condições do recinto e o isolamento social de Sandro.

    O aspecto mais desconcertante, contudo, foi a transformação de uma questão eminentemente técnico-veterinária em espetáculo político-midiático. A presença ostensiva do prefeito Rodrigo Manga no local, desde a madrugada do dia da transferência, acompanhada de secretários, imprensa e manifestações públicas contrárias à remoção, contribuiu para converter uma operação de manejo zoológico em um episódio de elevada carga emocional. É legítimo que o chefe do Executivo discorde de uma decisão judicial e utilize os instrumentos recursais disponíveis; o que se mostra intelectualmente questionável é a exploração política de um animal idoso como personagem de uma narrativa de confronto, sobretudo quando a controvérsia já estava submetida ao escrutínio do Judiciário e de especialistas.
    A documentação técnica disponível tampouco autoriza a simplificação propagandística do caso. Análises e perícias apontaram problemas concretos no recinto: embora a área total indicada para Sandro fosse superior ao mínimo mencionado na regulamentação então utilizada, havia desconformidades relevantes, como a profundidade do tanque e, especialmente, a altura do cambiamento, além da ausência de outro elefante da mesma espécie para interação social. Documento oficial registra, inclusive, comparação entre parâmetros técnicos e as condições efetivamente encontradas no zoológico. A própria decisão judicial de 2026 apoiou-se em laudo pericial que apontou insuficiência de infraestrutura para as necessidades de mobilidade e conforto de um elefante idoso. É verdade que houve manifestações e documentos defendendo a permanência de Sandro, razão pela qual seria incorreto afirmar que inexistiu qualquer divergência técnica; o que não se sustenta é tratar a transferência
    como uma decisão arbitrária ou desprovida de fundamentação especializada.
    Mais grave ainda é permitir que a retórica política obscureça uma discussão civilizatória muito mais ampla. Elefantes asiáticos são animais de extraordinária complexidade comportamental, elevada capacidade cognitiva, estrutura social sofisticada e necessidades espaciais que dificilmente podem ser reproduzidas em recintos zoológicos convencionais. O próprio percurso de aproximadamente 1.600 quilômetros foi planejado mediante aclimatação progressiva, reforço positivo e acompanhamento especializado, tendo Sandro entrado voluntariamente na caixa de transporte. Portanto, a questão fundamental jamais deveria ter sido quem produz a narrativa política mais comovente, mas qual modelo de manejo efetivamente oferece melhores condições de bem-estar, expressão comportamental, interação social e longevidade ao animal.
    O caso Sandro deveria servir, finalmente, para uma reflexão institucional que ultrapasse a disputa episódica entre Prefeitura, Justiça, organizações ambientais e grupos de defesa dos animais: é necessário discutir a extinção gradual do modelo tradicional de zoológico baseado na manutenção permanente de grandes animais silvestres em recintos concebidos prioritariamente para exposição pública. Zoológicos podem exercer funções relevantes de educação ambiental, pesquisa e conservação ex situ, mas isso não significa que toda espécie deva permanecer indefinidamente confinada apenas porque historicamente ocupou determinado espaço. A transição para santuários, centros de conservação e estruturas especializadas, quando tecnicamente recomendada, representa uma evolução conceitual da política de fauna. Sandro não deveria ser lembrado como troféu de uma batalha política, mas como o símbolo de uma pergunta incômoda que o poder público precisa finalmente enfrentar: quando a ciência aponta uma mudança necessária, por que ainda insistimos em transformar o bem-estar animal em palanque?

    *Fernando Grecco é empresário.

    (Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do jornal)




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