Opinião: Tempos difíceis: a crise política de hoje e o retrato traçado há dois mil anos
Por Marcus Alexandre Pécora*
O cenário atual do Brasil convida a um olhar crítico e a uma análise mais apurada e aprofundada do comportamento humano. Existe uma sensação difusa de que o debate público entrou em colapso. A opinião divergente deixou de ser interlocução e virou ameaça; o adversário político foi rebaixado a inimigo moral; a notícia falsa corre mais rápido do que a correção; e o ataque, na maioria das vezes desordenado, quase ritual, substituiu o argumento.
A cultura do cancelamento e a intolerância extrema parecem sintomas de uma época inédita. Não são. Há cerca de dois mil anos, a Segunda Carta de São Paulo a Timóteo já traçou um retrato do comportamento humano em tempos difíceis, que se lê hoje como um noticiário antecipado. E o capítulo 24 do Evangelho de Mateus foi além: sugeriu que a multiplicação desses comportamentos diz respeito a algo maior do que a política.
O contexto é simples e humano. Paulo, apóstolo, preso e consciente de que o fim se aproximava, escreve ao jovem colaborador Timóteo uma espécie de testamento. No capítulo 3, o alerta central: sobreviriam tempos difíceis (2Tm 3,1). O que interessa, porém, não é a data, mas sim o retrato. Em vez de descrever guerras, crises econômicas ou impérios, a carta descreve pessoas. Um catálogo de comportamentos: egoístas, avarentos, presunçosos, soberbos, caluniadores, irreconciliáveis, sem afeto natural, cruéis, traidores, precipitados, mais amantes dos prazeres do que de Deus; e, no traço mais sutil, pessoas de aparência piedosa, mas vazias por dentro (2Tm 3,2-5).
Leia-se essa lista com os olhos de hoje. Não é preciso fé para reconhecê-la: é a anatomia do debate público contemporâneo, descrita com precisão de raio-X muito antes do primeiro smartphone. Cada traço do catálogo encontra correspondência exata no cenário atual.
A carta abre o catálogo pelo egoísmo: o amor-próprio como medida de todas as coisas. Hoje, a opinião deixou de ser posição e virou identidade: discordar de mim não é divergir, é atacar quem eu sou. Sobre essa base, todo o resto se constrói. Entre os comportamentos previstos está o caluniador, aquele que destrói reputações com palavras.
A notícia falsa é a calúnia industrializada, hoje materializada em fake news produzida em escala, distribuída por algoritmo, consumida como verdade. A correção, sempre mais lenta do que a mentira, chega quando o dano já foi feito. Na mesma seara, a palavra menciona pessoas irreconciliáveis, incapazes de reconciliação, sem caminho de volta. Esta é a definição exata do cancelamento: o erro é tratado como sentença perpétua, o adversário como caso encerrado, o diálogo como rendição. Não há ponte; o que impera é a expulsão. É o suposto irreconciliável que, nas entrelinhas, criou a cultura do cancelamento.
A carta também fala de pessoas cruéis, sem afeto natural. O ataque desordenado de hoje tornou-se um linchamento virtual: a busca pela destruição da pessoa e não apenas da ideia, uma violência sem rosto, praticada a distância, contra alguém que deixou de ser visto como gente.
O que se vê é uma virtude performática, isto é, a indignação como espetáculo, o moralismo como identidade, a justiça exibida sem ser praticada. O cancelamento frequentemente se veste de defesa moral enquanto exerce, na prática, a crueldade que diz combater. E o detalhe que parece escrito para a era dos algoritmos: pessoas sempre aprendendo, mas nunca capazes de chegar ao conhecimento da verdade (2Tm 3,7). Scroll infinito, conteúdo infinito, chegada zero. Nunca uma humanidade consumiu tanta informação e chegou tão pouco perto da verdade.
A carta fecha o diagnóstico com uma previsão sobre o ecossistema da desinformação: os maus avançariam de mal a pior, enganando e sendo enganados (2Tm 3,13). O enganador também é vítima: vive dentro da narrativa que produz. É a descrição exata das bolhas em que cada lado se isola na própria versão dos fatos. Trata-se do egoísmo como identidade, da calúnia industrializada, da irreconciliabilidade, da crueldade, da virtude de fachada e da eterna aprendizagem sem chegada. Infelizmente, numa análise atual, é o desenho exato do comportamento humano, traçado há dois mil anos, exibido hoje em tempo real.
Se a carta de Paulo descreve os comportamentos, o capítulo 24 de Mateus explica a escala. Interrogado sobre o fim dos tempos, Jesus não entrega um calendário: descreve um clima. Guerras reais e, sobretudo, rumores de guerra (Mt 24,6-7): as guerras de fato e a guerra da informação, do boato, da narrativa. Falsos profetas com audiência garantida e a economia da manipulação (Mt 24,11). E o verso que amarra o diagnóstico: com a multiplicação da iniquidade, o amor de muitos esfriaria (Mt 24,12). Eis a chave.
A crise política não é apenas uma disputa entre projetos, partidos e narrativas. É multiplicação de iniquidade com um efeito específico: o esfriamento do amor, isto é, da capacidade de conviver com o diferente. A intolerância extrema não é, nessa leitura, apenas tática de guerra ideológica; é sintoma. Muitos se escandalizariam, trairiam e odiariam uns aos outros (Mt 24,10): indignação permanente, traição como método, ódio como identidade.
A diferença entre os dois textos é a escala. Na carta, os comportamentos são um alerta a uma comunidade; já no evangelho, a sua multiplicação é apresentada como sinal dos tempos: não a causa do fim, mas o clima que o precede. Os períodos dos testamentos bíblicos sugerem uma leitura comparativa e refletem algo incômodo: se a carta de Paulo descreve o que somos capazes de ser, Mateus 24 descreve o que estamos nos tornando, em escala global, em tempo real, com algoritmos ampliando cada sintoma.
Colocar o noticiário de hoje ao lado da Segunda Carta a Timóteo e do Evangelho de Mateus não é fatalismo nem profecia; é diagnóstico. A carta mostra que os comportamentos que espantam o presente já estavam mapeados: o ser humano, no poder e fora dele, muda pouco de figurino. O evangelho mostra que esses escritos não tratavam a repetição como curiosidade; ou seja, quando ela se multiplica e esfria o amor, deixa de ser só guerra ideológica e passa a ser sinal.
Os textos funcionaram, de fato, como ensinamento e como previsão, e o que previram materializou-se com precisão desconfortável. Fica, para o leitor, a pergunta que os dois textos fazem em conjunto: em um tempo em que todos aprendem e ninguém chega, quem ainda está construindo algo e quem está apenas destruindo o outro? A resposta separa muito menos do que se imagina. E é exatamente por isso que a carta e o evangelho continuam atuais.
*Marcus Alexandre Pécora é advogado, consultor e especialista em licitações e contratos com pós-graduação em direito público.
(Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do jornal)






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