Crônica da semana: Arnaldo Mendonça: um homem, um cachorro e uma cidade
Arnaldo Mendonça Quem passa pela Avenida 31 de Março talvez já conheça a
cena: Arnaldo Mendonça segue em passos acelerados, empurrando um carrinho.
Dentro dele, um colchão de solteiro, uma manta xadrez vermelha e Mairon, seu
companheiro de tantos anos.
Há quem olhe, reconheça e continue. Há quem saiba seu nome,
mas nunca tenha ouvido sua história. E há quem interrompa a própria pressa para
perguntar:
- Tudo bem, Arnaldo?
Para quem passou parte da vida procurando um lugar onde
ficar, deve haver um conforto especial em encontrar alguém que percebe sua
presença.
Antes de escolher Votorantim, Arnaldo conheceu muitas
estradas. Conta que passou pelo Rio de Janeiro, pelo Paraná, por Mato Grosso.
Pediu caronas, procurou pouso em albergues, banho onde fosse possível e abrigo
nas portas de igrejas. Houve padres que o receberam, salões onde pôde dormir,
pessoas que lhe ofereceram ajuda. Ele também ajudava como podia. Guardou essas
lembranças e ainda hoje as conta com gratidão.
Sua história começa muito antes dessas viagens, num tempo ao
qual só consegue chegar pelo que lhe contaram. Segundo seu relato, ainda bebê
foi encontrado por bombeiros dentro de um saco plástico, junto a um rio, e
levado para um orfanato.
É uma passagem dolorosa, que ele narra sem poder esclarecer
todas as circunstâncias. Ouvindo-o, penso naquele bebê dependendo inteiramente
de que alguém o encontrasse. Décadas depois, diante de mim, está o homem que
sobreviveu e aprendeu a agradecer por cada pessoa que permaneceu em seu
caminho.
Arnaldo diz ter crescido no orfanato Dona Paulina de Souza
Queiroz, em São Paulo, onde ficou até os
14 anos. Depois veio uma internação psiquiátrica. Por volta dos 18, conta,
começou a percorrer o mundo que conheceu pelas ruas.
As datas às vezes se confundem. Os nomes escapam. Ele tenta
recuperar um ano, muda de assunto, volta a uma lembrança. Há acontecimentos que
consegue contar com detalhes e períodos inteiros que não sabe organizar.
Escutá-lo exige que a gente desacelere também.
Nem toda pergunta encontrará uma resposta exata. Ainda
assim, há uma pessoa ali, tentando nos entregar o que consegue lembrar da
própria vida. Podemos recebê-la com paciência.
Entre tantos lugares por onde passou, foi em Votorantim que
Arnaldo quis ficar. Quando fala da cidade, elogia as pessoas, o tratamento que
recebeu, a ajuda que encontrou. Diz que não quer ir embora.
Recorda com gratidão o ex-prefeito João Souto e sua esposa.
Na lembrança que guarda, foi acolhido por eles. Conta que o prefeito conversou
com ele e enxergou alguém que não faria mal a ninguém.
Arnaldo faz questão de repetir que nunca se envolveu em
coisas erradas. Diz que não usou drogas e que tem medo da bebida. Fala com uma
insistência que me faz pensar em quantas vezes terá sentido necessidade de
explicar quem era, de tranquilizar alguém, de pedir confiança antes mesmo de
pedir ajuda.
Gostaria que ele soubesse que pode descansar dessa defesa
enquanto conversamos.
Quem o encontra pela avenida talvez ainda imagine que, ao
fim do dia, ele procure um canto na calçada. Mas Arnaldo tem hoje um endereço,
uma porta para abrir, um lugar para voltar. Mora de aluguel na Vila
Dominguinhos, com a renda de sua aposentadoria.
Ao falar dessa conquista, lembra Sandra, que o ajudou a
conseguir o benefício. Procura na memória, tenta, mas o sobrenome não vem. Ele
se refere a Sandra Francisco, que trabalhava como assistente social da
Prefeitura.
A ajuda, porém, ele não esqueceu.
Talvez Sandra nem imagine quantas vezes é lembrada quando
Arnaldo conta que paga seu aluguel. Seu gesto continua presente em cada mês de
moradia, em cada noite que ele pode passar sob um teto.
E nesse endereço há espaço para dois.
Mairon chegou ainda pequeno, presente de uma senhora cujo
nome também se perdeu entre as lembranças. O cachorro cresceu, acompanhou os
caminhos do amigo e envelheceu ao seu lado. Hoje, com mais de dez anos, tem o
corpo pesado e viaja acomodado no carrinho.
Arnaldo caminha depressa. Mairon descansa.
O colchão e a manta vermelha fazem parte desse cuidado. Quem
observa de longe talvez veja apenas uma cena curiosa no meio da avenida. Quando
conhecemos um pouco da história dos dois, o carrinho ganha outro significado: é
o jeito que Arnaldo encontrou de continuar levando consigo o amigo que já não
acompanha seus passos como antes.
Ele, que precisou de abrigo tantas vezes, ajeita um lugar
confortável para Mairon.
Houve também uma mobilização para localizar sua família. O
esforço possibilitou um reencontro com a mãe e uma irmã, que vieram a
Votorantim vê-lo depois de 48 anos de separação.
Arnaldo conta que, meses após o reencontro, recebeu a
notícia de que sua mãe, Vera Lúcia Mendonça, havia morrido. Segundo seu relato,
a informação chegou quando demonstrou interesse em ir morar com ela, em Cotia.
As circunstâncias dessa perda permanecem pouco esclarecidas.
Não é preciso preencher suas lacunas com certezas que não
possuímos. Podemos ouvir a tristeza que acompanha o relato. Para ele, a mãe
voltou à sua vida e, pouco depois, partiu.
Fico pensando em quanto cabe numa conversa como essa. Na
avenida, vemos alguns segundos de um homem passando. Sentados para ouvi-lo,
encontramos uma infância, estradas, separações, reencontros, gente que ajudou e
gente de quem ele sente falta.
Encontramos também sonhos.
Arnaldo quer ser veterinário. Quer cuidar de cachorros,
oferecer a outros animais o carinho que dedica a Mairon. Conta que nunca foi à
escola e se define como analfabeto. Quando fala desse desejo, penso nas
oportunidades de estudo que lhe faltaram e em tudo o que ainda gostaria de
aprender.
Depois de tantos caminhos percorridos, ele continua
imaginando um futuro em que possa cuidar. No presente, esse cuidado já
acompanha o velho amigo pelas ruas de Votorantim, acomodado sobre um colchão,
protegido por uma manta vermelha.
Sua fé aparece entre uma resposta e outra. Agradece a Deus
pela cidade, pelas pessoas, pela moradia. Diz que agradece ao levantar, antes
de comer, antes de dormir. A gratidão acompanha sua rotina, embora ainda
existam necessidades e desejos por realizar.
Seria injusto transformar suas dificuldades numa história em
que tudo terminou bem. Arnaldo ainda precisa de segurança, de cuidado e de
oportunidades. Sua alegria não diminui essas necessidades. Apenas nos permite
conhecer outra parte dele, que a pressa e o preconceito tantas vezes escondem.
Se fizermos a conta pelos bens, Arnaldo tem pouco. Quando
ele próprio fala do que conquistou, porém, aparecem uma casa alugada, a
aposentadoria, o cachorro, os conhecidos, a cidade onde quer permanecer. Coisas
que, para quem passou noites sem saber onde dormiria, têm um valor difícil de
medir.
Durante tantos anos, viu Votorantim mudar. Crianças
cresceram, lojas fecharam, outras abriram, prefeitos chegaram e partiram. Ele
continuou atravessando a avenida, encontrando rostos conhecidos, fazendo parte
da paisagem e da vida de quem mora aqui.
Arnaldo é um cidadão votorantinense. Sua presença pertence à
história cotidiana da cidade, essa que se escreve nas calçadas, nas conversas
de comércio, nos cumprimentos repetidos ao longo dos anos.
Pessoas em situação de rua são frequentemente tratadas como
se não estivessem ali. Passamos perto, desviamos o olhar, seguimos adiante. Às
vezes reconhecemos uma roupa ou um carrinho antes de conhecer um nome. E,
quando a condição daquela pessoa muda, continuamos presos à imagem antiga.
Arnaldo já saiu das ruas. Talvez falte a muitos de nós
atualizar o olhar.
Na próxima vez que ele passar com Mairon, haverá naquele
carrinho o cuidado de um amigo por outro. E, nas mãos que o empurram, a
história de alguém que atravessou muito mais do que conseguimos enxergar.
Podemos começar por um cumprimento.
- Bom dia, Arnaldo.
Talvez ele pare por alguns instantes. Talvez conte alguma
coisa de Mairon, pergunte como estamos e depois retome seus passos acelerados.
A avenida seguirá com seu barulho, seus carros, sua pressa.
Mais tarde, Arnaldo terá para onde voltar. Mairon irá com
ele. E os dois levarão para casa mais um pequeno encontro com essa família
espalhada pela cidade.
Por Werinton Kermes
Fotos: Werinton Kermes








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