A retórica punitiva e a miséria estrutural: a hipocrisia política diante da violência doméstica
Por Fernando Grecco e Rosalina Rodrigues*
A cada episódio brutal de violência doméstica que irrompe no noticiário — seja o feminicídio, seja a agressão covarde contra uma criança — assiste-se ao mesmo espetáculo previsível: a classe política, em súbita comoção performática, ergue-se em discursos inflamados e propõe, com sofreguidão oportunista, o recrudescimento das penas. Trata-se de uma liturgia cínica, repetida ad nauseam, que não enfrenta as causas profundas do problema, mas apenas explora suas consequências mais visíveis.
É preciso dizer com todas as letras: punir nunca foi — nem jamais será — o cerne da questão. No âmbito da violência doméstica, a autoria dos crimes é, em esmagadora maioria, conhecida. Dados oficiais indicam que cerca de 76,6% dos agressores são homens e, não raro, íntimos das vítimas — parceiros, ex-parceiros ou familiares. Ademais, o próprio lar, espaço que deveria simbolizar proteção, converte-se em cenário de terror: mais de 70% das agressões ocorrem dentro de casa. Diante disso, a persecução penal, embora extremamente necessária, revela-se insuficiente. Punir é, de fato, o aspecto mais fácil — e, paradoxalmente, o menos eficaz quando isolado.
O problema, portanto, não reside na ausência de leis, mas na falência estrutural de políticas públicas preventivas. A insistência em soluções penais draconianas evidencia não apenas incompetência administrativa, mas também uma conveniente cortina de fumaça que encobre a inação estatal em áreas fundamentais, como educação, assistência social e autonomia econômica.
Neste ponto, emerge um dos pilares negligenciados do debate: a dependência econômica feminina. As estatísticas são eloquentes e constrangedoras. No Brasil, mulheres recebem, em média, cerca de 79,3% do salário dos homens em empregos formais, sendo que, em termos gerais, ainda ganham aproximadamente 20% a menos. Além disso, enfrentam maiores dificuldades de inserção no mercado de trabalho e acumulam jornadas extenuantes de trabalho não remunerado, dedicando quase o dobro de horas aos afazeres domésticos em comparação aos homens.
Essa disparidade não é mero detalhe estatístico: trata-se de um mecanismo silencioso de aprisionamento. A mulher economicamente dependente encontra-se, muitas vezes, impossibilitada de romper o ciclo de violência, seja por medo da miséria, seja pela responsabilidade unilateral sobre os filhos. Assim, perpetua-se uma engrenagem perversa na qual a desigualdade econômica alimenta a submissão, e esta, por sua vez, sustenta a violência.
A filósofa Simone de Beauvoir já advertia que “não se nasce mulher: torna-se”. Tal assertiva revela que a condição feminina é historicamente construída por estruturas sociais que naturalizam a desigualdade. A violência doméstica, nesse contexto, não é um desvio isolado, mas a expressão extrema de uma cultura que ainda tolera — quando não legitima — relações assimétricas de poder.
A hipocrisia política torna-se ainda mais evidente quando se observa que os mesmos agentes públicos que bradam por penas mais severas negligenciam investimentos robustos em educação de base. Ora, é precisamente a educação — formal e cidadã — o único caminho plausível para a transformação a médio e longo prazo. Não se trata de ingenuidade pedagógica, mas de uma constatação empírica: sociedades que investem consistentemente em educação de qualidade, igualdade de gênero e conscientização social apresentam índices significativamente menores de violência.
Educar, contudo, exige visão estratégica, recursos contínuos e, sobretudo, compromisso ético — atributos raros em um ambiente político frequentemente pautado pelo imediatismo eleitoral. É mais fácil, e politicamente mais rentável, propor somente o aumento de penas do que implementar políticas públicas complexas que envolvam capacitação profissional feminina, ampliação de creches, programas de renda e campanhas educativas de larga escala.
Em síntese, a obsessão punitivista da classe política não passa de um simulacro de ação. Enquanto se legisla sob o calor das manchetes, negligenciam-se as bases estruturais que sustentam a violência doméstica: desigualdade econômica, educação precária e ausência de políticas públicas integradas especialmente. Punir é fácil. Difícil — e verdadeiramente necessário — é prevenir. E prevenir exige coragem para enfrentar privilégios históricos, romper com discursos vazios e investir, de forma séria e contínua, na emancipação econômica e educacional das mulheres. Até que isso ocorra, continuaremos assistindo, perplexos, ao teatro cínico de uma política que, sob o pretexto de proteger, limita-se a reagir — sempre tarde, sempre insuficiente, sempre hipócrita.
*Fernando Grecco é empresário.
*Rosalina Rodrigues é servidora pública municipal.
(Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do jornal)





COMENTÁRIOS