Opinião: Votorantim tem potencial turístico, mas gestão pública afasta sonho de se tornar estância turística
Por Jesse James dos Santos
Receber o título de MIT — Município de Interesse Turístico — foi uma conquista importante para Votorantim. Para quem nasceu na cidade, cresceu aqui e conhece sua história, imaginar Votorantim alcançando futuramente o título de Estância Turística seria motivo de orgulho. Porém, olhando de perto a forma como o turismo, a cultura e o patrimônio histórico vêm sendo administrados ao longo dos anos, é impossível não reconhecer que a cidade ainda está muito distante dessa realidade.
Votorantim possui história, tradição, patrimônio, eventos esportivos e riquezas naturais. O problema nunca foi a falta de potencial. O problema está na ausência de gestão pública eficiente, planejamento turístico e valorização da própria identidade cultural da cidade.
A tradicional Festa Junina de Votorantim, por exemplo, um evento centenário e símbolo histórico do município, perdeu grande parte de suas raízes populares. O que antes representava tradição, religiosidade e cultura local, hoje se transformou em um grande evento comercial. Elementos históricos praticamente desapareceram: fogueiras, quadrilhas, bandeiras, concurso da rainha, pau de sebo, manifestações culturais e artistas locais já não têm mais o mesmo espaço.
Além disso, moradores convivem com problemas de segurança, trânsito e o impacto do som dos shows que avançam pela madrugada. Para muitos, a festa deixou de ser celebração tradicional para se tornar um grande incômodo anual. O simbolismo da homenagem ao padroeiro São João praticamente se perdeu no tempo.
No esporte, Votorantim também desperdiça oportunidades históricas. A tradicional Corrida de São João, considerada a segunda mais antiga do Brasil em sua modalidade, poderia ser um importante patrimônio esportivo e turístico. Porém, recebe pouca valorização histórica e cultural.
A cidade também perdeu a força da antiga Copa Brasil de Futebol Infantil, que revelou talentos e colocou Votorantim em destaque nacional. O torneio acabou enfraquecido até desaparecer da atual gestão municipal, eliminando mais uma tradição que poderia movimentar turismo, economia e memória esportiva.
Poucos municípios brasileiros poderiam dizer que são berço do primeiro time de futebol do Brasil: o Esporte Clube Savoia. Mesmo assim, não existe um marco turístico forte, um memorial adequado ou valorização histórica dessa conquista.
O antigo estádio do Savoia, construído em 1924, permanece resistindo ao tempo quase como um sobrevivente abandonado. Ao lado dele está a histórica estátua do jogador do Savoia, considerada uma das obras artísticas mais antigas de Votorantim, com mais de cem anos. Um patrimônio cultural e esportivo que sofre com abandono, descaso e falta de preservação adequada.
Enquanto outras cidades transformam sua memória em atração turística, Votorantim parece ignorar sua própria história.
A Serra de São Francisco e a Represa de Itupararanga também poderiam representar grandes polos turísticos regionais. Porém, faltam infraestrutura, sinalização, informação e projetos permanentes de incentivo ao turismo ecológico e rural. Em muitos casos, o poder público investe em obras simbólicas, como portais decorativos, enquanto necessidades básicas dos visitantes seguem esquecidas.
A tradicional Caminhada da Penha, manifestação de fé e tradição popular, também sofre com abandono estrutural. O trajeto utilizado por romeiros possui pontos perigosos, falta acostamento e oferece riscos constantes aos participantes. A ausência de investimentos adequados pode transformar uma tradição religiosa em cenário de tragédia futura.
Outro exemplo de abandono está no patrimônio ferroviário. A antiga linha férrea que poderia se transformar em passeio turístico perdeu grande parte de sua estrutura. A destruição do pontilhão da Chave, durante gestões passadas, interrompeu projetos que jamais saíram do papel. Posteriormente, a retirada dos trilhos na região de Santa Helena praticamente enterrou qualquer possibilidade futura de um trem turístico na cidade.
O Parque do Matão, que já foi referência de lazer e chegou até a funcionar como zoológico, hoje enfrenta perda de visitação e falta de atividades permanentes. Um espaço riquíssimo, localizado no coração da cidade, mas sem o aproveitamento turístico e ambiental que poderia ter.
Na área cultural, o cenário também preocupa. O museu municipal continua indefinido, funcionando de maneira improvisada enquanto um novo espaço, anunciado há anos na Praça Zeca Padeiro, segue inacabado. Um retrato do abandono da memória pública.
Enquanto isso, personagens históricos de Votorantim recebem reconhecimento em outras cidades e museus. Fiote é lembrado no Museu Pelé em Santos, João do Santo Júnior tem sua história preservada no Museu do Futebol do Pacaembu, assim como a história do Savoia. Fora da cidade existe valorização. Dentro dela, silêncio. Assim, como artistas que são reverenciados e aplaudidos em outras cidades e que Votorantim pune por se destacarem.
Outro exemplo preocupante é o antigo Aquário Cultura, espaço que durante muitos anos foi referência cultural em Votorantim. O local já recebeu importantes eventos da cidade, festivais sertanejos, apresentações de pop e rock, exposições artísticas e diversas manifestações culturais que ajudavam a movimentar a cena cultural votorantinense.
Com o passar do tempo, o espaço perdeu completamente sua caracterização original. Primeiro foi transformado em biblioteca e, posteriormente, passou a ser utilizado como departamento de uma empresa particular responsável pela administração da Festa Junina. Uma situação considerada por muitos como um verdadeiro absurdo administrativo.
Um espaço público cultural, criado para servir à população, hoje é utilizado em favor de interesses privados e econômicos. Uma situação que levanta questionamentos sérios sobre a utilização do patrimônio público e que, na visão de muitos moradores, merece inclusive investigação do Ministério Público.
Outro símbolo do abandono é a Praça Zeca Padeiro, um dos espaços mais importantes para manifestações culturais da cidade. O local já foi palco de grandes eventos como o Palco Livre, apresentações culturais e comemorações do Dia Mundial do Rock, reunindo artistas locais e público de diversas regiões.
Hoje, porém, a praça sofre com a falta de utilização, manutenção e projetos permanentes. O palco, antes símbolo da cultura popular e alternativa da cidade, encontra-se abandonado. O espaço acabou se transformando também em ponto de permanência de moradores em situação de rua, evidenciando não apenas o abandono cultural e turístico, mas também um grave problema social ignorado pelo poder público.
A falta de políticas de revitalização desses espaços representa um enorme desperdício do potencial cultural e turístico de Votorantim, que poderia utilizar esses locais como polos permanentes de eventos, lazer, cultura e desenvolvimento econômico.
Espaços culturais mudam constantemente de função, patrimônios são descaracterizados, placas históricas são roubadas ou vandalizadas e quase não existe política efetiva de preservação.
A chamada Rota Caipira, que poderia fortalecer o turismo rural e cultural, sobrevive sem divulgação adequada, sem incentivo e sem estrutura. O Espaço da Cultura Caipira permanece praticamente sem atividades permanentes, deteriorando-se com o passar dos anos.
O problema de Votorantim não é ausência de potencial. O município possui história, tradição, esporte, religiosidade, cultura popular, natureza e memória. O verdadeiro problema está na falta de valorização dessas riquezas por parte das administrações públicas.
Secretarias de Cultura, Turismo e Esporte mudam de comando, mas continuam presas a interesses políticos, sem planejamento duradouro e sem projetos sólidos de preservação histórica e desenvolvimento turístico.
Votorantim poderia ser referência regional. Poderia transformar sua história em orgulho, educação, turismo e desenvolvimento econômico. Mas enquanto o patrimônio continuar sendo tratado com descaso, o sonho de se tornar uma verdadeira estância turística continuará apenas no discurso político.
*Jesse James dos Santos é relações públicas, produtor cultural e documentarista





COMENTÁRIOS